segunda-feira, 23 de junho de 2014

UMA CRÔNICA HISTÓRICA - ou Diário de uma visita em família a Ouro Preto

Ao som de Infinita Highway marcávamos nossa viagem de volta de Ouro Preto. Às vésperas de completar 33 anos, jamais tive a oportunidade de vencer os poucos mais de 130 quilômetros que me separavam de um dos maiores centros históricos do nosso país. E, por pouco, iria precisar esperar mais. Mas o patrocínio do meu irmão Ramon e a vontade de estar numa viagem em família superaram as minhas dificuldades, e naquela segunda-feira, dia 16/06, iniciamos nossa jornada.

 No caminho, registramos mais uma edição do Rádio Polo. Há dois anos, meu irmão e eu criamos o hábito de gravar um “programa de rádio” a bordo do seu carro (Um Polo, daí o nome...). Cada gravação não durava mais do que dez minutos. A nova edição contou com a participação de Vovô Eustáquio, Vovó Esmeraldina e Karine, a caçulinha sem educação. Engraçado como essa brincadeirinha faz a gente se encher de saudade daqueles momentos cada vez que escutamos.  Ouço os programas antigos e sou capaz de lembrar exatamente onde estava quando cada palavra foi dita.


E finalmente, após algumas horas de estrada – e uma retenção que nos deixou imóveis por mais de quarenta minutos – eis que chegamos ao nosso destino. Havia muito tempo eu não encarava o desafio de estar no mesmo teto que meu irmão, meus pais e minha filha por mais de três dias, convivendo juntos e revivendo experiências da minha infância enquanto marcava uma outra. Minha única certeza nessa viagem é que as sensações provocadas por ela durariam para sempre.

O primeiro contato com a Praça Tiradentes não me surpreendeu, confesso.  As ruas de pedra – que devem ter causado algum dano à suspensão do nosso querido Polo – faziam me sentir na Universidade Federal de Minas Gerais, exceto pelo fato de não encontrarmos quase nenhuma região absolutamente plana. As casinhas me lembravam muito às de minha querida Caracóis de Cima, uma região de Esmeraldas que mantém ainda intactas suas origens. Como já estávamos no horário de almoço e não tínhamos muito tempo para rodar a cidade, optamos por “experimentar” a tradicional comida mineira no Restaurante Bené da Flauta, recomendado por servir a melhor torrada do mundo, o que é um grande exagero, embora sua comida seja excelente, salgada apenas no preço!


Aliás, a cozinha mineira foi nossa escolha em todos os outros dias da viagem. Eu, que me recuso a subir em uma balança já há alguns dias, ainda não consegui ficar de saco cheio de tanto ver panelas de pedra em fogão à lenha recheadas de frango com quiabo e feijão tropeiro!

Nestes dias em especial, visitar Ouro Preto não é somente viajar no tempo, mas também no espaço. Em clima de Copa do Mundo, a cidade recebe turistas de todas as partes, e tem-se não só a sensação de estar em outra época, mas em outro lugar. Pelo menos dois mil colombianos haviam chegado ao centro histórico no fim-de-semana (dados não oficiais) e muitos europeus e asiáticos também estavam presentes.

No dia do jogo do Brasil contra o México, pela segunda rodada da fase de grupos, visitamos o Museu dos Inconfidentes e a Casa da Moeda. Conhecemos mais uma vez detalhes da história do povo em sua luta pela liberdade da opressão e da tirania de um império massacrante, mas de forma tão presente ela nos provoca arrepios. Acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos torcendo para que dessa vez o final tenha sido diferente, mas nada muda. Os instrumentos de tortura aos escravos nos provocam dor quando os vemos. Difícil imaginar que há apenas três gerações da minha (sim, somente três gerações! O avô do meu pai foi escravo)  algo assim era usado contra um ser humano, usado pelos mesmos que ao cair da tarde frequentavam aquelas belas igrejas que rodeiam toda a cidade... Com certeza, ainda temos muitas contradições a superar.

Contradições muitas vezes retratadas na arte barroca presente por todos os lados. O barroco brasileiro sempre foi considerado uma arte “pesada”, carregada demais. Diante das obras de Aleijadinho, a profusão de dor e sofrimento exaltadas por imagens sagradas faz-nos sentir realmente diminuídos e em eterno conflito. O “culto do exagero” é onipresente, e olhos pouco adaptados à arte sentem que tudo aquilo é maravilhoso.
À tarde era hora de nos concentrarmos na Praça Tiradentes para assistirmos ao jogo da Seleção Brasileira. Um telão instalado no centro da cidade atraiu centenas de pessoas às ruas, e assim pudemos ter uma noção da dimensão da quantidade de turistas na região. Não eram poucos, mas menos do que esperávamos.  Meu pai, meu irmão e eu nos embolamos do jeito que dava, sentados no chão mesmo,  e entre uma Skol e outra fomos abordados por uma das figuras dessa viagem, o “Pitoco” um negro catador de latinhas e óculos fundo de garrafa que dava a si mesmo os méritos para aquela festa. Nós o tratamos bem a princípio, mas sua insistência em não nos deixar assistir ao jogo e ainda por cima querer beber nossa cerveja logo nos fez querer despistá-lo. Não foi fácil.

No intervalo do primeiro tempo, quatro latões (pra cada) e nenhum gol, já havíamos atingido o nível 2 da embriaguez. Na multidão um mexicano solitário era celebridade, tirava fotos com todo mundo. Um problema com meu carregador de celular me deixou praticamente incomunicável,  e o 1% de bateria restante no celular do meu irmão não foram o suficiente para que pudéssemos registrar aquele encontro “histórico”. 

Segundo tempo de jogo, e a Skol havia sido substituída por dez Kaisers que um morador de uma república vendia a dois reais cada uma. Os gritos de gol não vieram, ficaram entalados no fundo da garganta, impedidos pela atuação brilhante do goleiro mexicano Ochoa. Mesmo assim já estava rouco, gritava palavrões e gesticulava muito, entrava nesse momento no nível 3 da embriaguez. Tudo era festa! Fim de jogo, nada de gols. 

A multidão se espalhava e no meio da muvuca enxerguei minha mãe e minha filha que deviam estar na pousada. Então meus olhos já estavam me pregando uma peça? De jeito nenhum, elas chegaram a tempo de nos encontrar nos enturmando com um grupo de alemães que também tinham ido ali assistir ao empate da Seleção Brasileira. No meio deles, apenas um suíço que morava no Brasil falava português. Mas não lhe dei atenção, aproveitei meu "momento desinibição" para apresentar aos gringos minha mãe e minha filha, só para mostrar à minha progenitora que os anos de inglês não foram em vão. A Karine ficava maravilhada e ao mesmo tempo incomodada a ver pessoas conversando sem que ela pudesse entender uma só palavra, e ao mesmo tempo se sentia orgulhosa em saber que o papai podia entendê-los (desde que falassem somente em inglês... hehehe). 

Depois de nos despedirmos dos estrangeiros  -  e, na versão da minha mãe, gritarmos "Brasil! Brasil!" para os carros que passavam nas ruas - avistamos um rapaz afeminado que vendia ingressos para o show dos Candongueiros, um grupo de gafieira que iria se apresentar num salão próximo à nossa pousada. Já havíamos tomado conhecimento desse show na véspera, e então resolvemos ir, já que o movimento na praça começava a diminuir. E queríamos atingir pelo menos o nível 4 da embriaguez. 

Não sei se foi o álcool, mas antes de irmos, ainda conhecemos um americano, namorado de uma brasileira, que falava e entendia o português melhor do que a gente. "Oh man, I'd like a chance to warm up my English and you speaking my language. Come on! Forget it!" Acho que disse algo parecido com isso a ele. No caminho, um sambinha na esquina nos fez parar por alguns minutos, e enquanto esperava meu irmão ir até o banheiro do bar, acabei conhecendo Dona Lurdes, uma senhora negra e magrinha, mas muito negra e muito magrinha mesmo, do cabelo bem crespo, dona de um gingado e uma simpatia que logo conquistou a mim e ao Ramon. Ela e seu filho Diogo, que começava a fazer seu curso de metalurgia, também nos indicaram o Clube 15 de Novembro, onde iria se ocorrer o show dos Candongueiros. 

Chegando ao clube, encontramos a dona do salão, que conhecemos um dia antes na mercearia do Seu Enéas. A dona Marli e o marido dela, o "Seu Sérgio",  nos receberam de braços abertos (claro! clientes né?) e nos ofereceram umas porções tira-gosto de cortesia. No balcão, encontramos o rapaz afeminado que tinha nos vendido os ingressos: Josimar. Estudante de não-sei-o-quê, ele se sentou conosco e começou a reclamar (justamente!) do tamanho das porções pelas quais se cobrava 
oito reais! Acabamos discutindo sem querer com a cozinheira que não tinha nada a ver com a história, e fomos pra pista de dança. 

As cervejas já haviam sido substituídas por caipirinhas, e no meio do salão, vi a dona Lurdes, com quem dancei muito, o Diogo, que dizia insistentemente que fazia questão que Ramon e eu viéssemos em sua formatura, e tinha outro cara lá, que depois me adicionou no Whatsapp, mas eu não sei o nome dele! Tinha mais gente, umas meninas com quem dançamos um pouco de forró, só pra esnobar, mas o pior da noite foi ficar se esquivando do Josimar, que queria ficar comigo ou com o Ramon de qualquer jeito.

Quando percebi que estava ultrapassando já o nível 4 da embriaguez, minhas pernas automaticamente me levaram até a saída, e daí pra Pousada, parando pra pedir informação somente uma vez. Deixei pra trás meu irmão e uma blusa, mas só meu irmão iria chegar cerca de meia hora depois - segundo meu pai, que havia ficado acordado esperando a gente, me contou. 

Levantamos cedo no dia seguinte, mas não conseguimos ir muito longe. Após o café, dormimos enquanto vovó e Karine batiam perna pelas ruas de Ouro Preto. Somente à noite, contra a vontade da netinha, conseguimos fazer nosso último passeio: passar depressinha pela cidade de Mariana e conhecer um pouquinho de mais um centro histórico.

Enfim... visitar Ouro Preto foi uma desculpa que conseguimos para tirar nossa família do cotidiano e nos colocarmos juntos num lugar diferente... as anedotas que essa viagem nos proporcionou seriam praticamente as mesmas quaisquer que fossem os lugares escolhidos, e não caberiam nessa crônica: as conversas jocosas no café da manhã, a preocupação excessiva de minha mãe com a comida, a quantidade de sonequinhas.. além é claro dos longos papos que a muito tempo eu não podia bater com meu irmão caçulinha, no final das contas, foi o maior legado histórico que essa viagem pôde nos proporcionar, e queira Deus que as promessas feitas na Casa do Saci comecem de fato a se tornar - como o amor que tenho por essa família tão atrapalhada! - uma realidade! 









sexta-feira, 13 de junho de 2014

CONTOS ANACRÔNICOS: HISTÓRIAS DO PROFESSOR DE PORTUGUÊS DE SÃO CAJÁ DO MATO DENTRO

 A LOUCA

 Existe uma cidadezinha em Minas Gerais chamada São Cajá do Mato Dentro. Fica a 350 quilômetros de Belo Horizonte (logo ali, como dizem alguns habitantes da região).  Nessa cidadezinha vive um Professor de Português que, depois de visitar os principais centros históricos do Estado (como São José da Lapa e Vespasiano) resolveu se aposentar e morar no interior. Mas não parou de trabalhar. De Segunda a Sexta-feira continua a exercer seu ofício de professor, dando aulas particulares ou em grupos para que os habitantes da região possam aprender a se comunicar melhor no idioma padrão.

Mas não são todos os dias que vemos o Professor exercendo sua função. Geralmente, nos fins de semana, ele gosta de passear de tardinha pelo centro da cidade (uma pracinha, um bar e uma igreja) onde conversa com os habitantes locais. Estando a praça meio vazia neste Domingo, andou acompanhado de um exemplar de Dom Casmurro, do seu escritor preferido Machado de Assis, além do seu bloco de anotações. Sentando-se num dos bancos, tirou seus óculos, abriu o bloco e começou a escrever:

“Leitura Número 85 do Livro Dom Casmurro de ASSIS, Machado de. Pude perceber nessa leitura que...”

Enquanto prosseguia em sua análise, eis que uma conhecida louca que de vez em quando se desbaratava por ali surgiu do nada, completamente bêbada. Era inofensiva na maioria das vezes, mas muito incômoda.

- Eu mato aquele cretino! – gritou ela dando giros em torno de si, entrando na pracinha.

As janelas das casas começaram a se abrir e cabeças curiosas surgiram por entre as aberturas. O Professor, porém, permanecia impassível em sua leitura e nem sequer se mexeu.

- Vou acabar com a vida dele. O maldito que me trocou por aquela vaca!  Cretino!! Eu mato! Eu mato ele e todo mundo que aparecer na minha frente, eu mato! MATO!

Gritava cada vez mais forte, andando entre tropeços, a roupa maltrapilha, rasgada, o cabelo desgrenhado, rebelde, apontando para cima como chifres feitos de palha de aço. Os olhos vermelhos, a boca vazia de dentes, e os poucos que tinham eram amarelos e podres.

A Louca ainda não tinha se tocado da presença de mais uma pessoa na praça. O Professor, absorvido em sua leitura, sequer chegou a levantar os olhos para observar quem era a responsável por toda aquela gritaria que, aparentemente, não o perturbava. Quando ela viu que havia alguém ali perto, interrompeu o escândalo e começou a estudá-lo em silêncio.

- Foi você! – gritou novamente. – Você, o infeliz que me arruinou e me roubou tudo!!

Gritava histérica. Os homens do bar já haviam saído e se aproximavam da cena, preocupados com a reação da Louca. Nunca a tinham visto tão alterada, muito menos alguém permanecer tão quieto diante de tamanho escândalo. Todos conheciam o bom senso e a famosa paciência do Professor de Português, mas não sabiam que ele pudesse permanecer calmo diante daquela cena constrangedora.

- Larga isso e vem me encarar agora. Cadê aquela vadia, hein? Largou você também? Igual você fez comigo. Bem feito, agora eu quero tudo o que você me levou, tudo!!!

- Ei Professor. – gritavam alguns. – Saia daí, essa mulher está muito alterada hoje. Ela pode atacar o senhor.

Ele que até então não havia esboçado nenhuma reação tirou vagarosamente os óculos e fechou o livro, encarando a mulher sem demonstrar nenhuma surpresa.

- Madame, por favor. Os seus gritos estão prejudicando enormemente minha leitura. Por que está tão aborrecida?

- Eu quero tudo de volta, seu cretino. Seu traidor! Você me traiu e me levou tudo. TUDO!!

- Bem, se a senhora está me confundindo com alguém, devo lhe dizer que acabei de me mudar para este lugar e não posso ser quem você pensa que eu sou. Sinto muito!

- Eu sabia, você continua sendo um covarde, UM COVARDE!!

- Olha, eu estou num momento muito importante, lendo um livro de Machado de Assis. Se a senhora puder deixar essa conversa pra mais tarde...

- Um viado que você é. – Gritava a Louca. – Viadão! Esse homem é um VIADÃO, gente!

A Louca ria e gritava fazendo gestos obscenos, tentando chamar a atenção do Professor de Português. Ele, por sua vez, recolocou os óculos e retornou à sua leitura, inalterado. Os habitantes da região já começavam a se impressionar.

- Esse Professor tem moral mesmo.

- Nunca vi alguém ser tão calmo quanto ele.

- Se fosse comigo eu já teria arrebentado a cara dessa vadia.

A cena se desenrolava a cada minuto ganhando ares cada vez mais surreais. De um lado uma louca completa se descontrolava girando e se descabelando enquanto proferia todo tipo de ofensas e palavrões no ouvido do Professor. Por outro lado, ele permanecia imóvel, seus olhos desfilando pelas linhas do livro, quieto, incólume ao estardalhaço que se desenvolvia ao seu redor, como a estar no silêncio de uma biblioteca. Algumas mulheres gritavam das janelas pedindo que alguém tirasse a Louca de perto do Professor, pois ela poderia machucá-lo. Mas mesmo os mais corajosos não se aventuravam a chegar perto dela, pois jamais a tinham visto tão zangada e tão descontrolada como agora.

- Quer saber, homem? – continuava a mendiga. – Você não vale NADA! Perdi meu tempo com você. Você é um frouxo, um viadão mesmo. Tão viadão quanto esse Machado que você tá lendo aí.

- Como é que é? – perguntou o Professor levantando os olhos do livro.

- Você e esse cara que escreveu esse livro aí são dois VIADÃO!!! Ah, ah, ah, ah...

Foram necessários cinco homens para tirar o Professor de cima da Louca. Ela foi levada às pressas para o único hospital da cidade, em coma.
 

segunda-feira, 5 de maio de 2014

A construção de um farmacêutico

Esta postagem foi desenvolvida como um trabalho para a disciplina: Farmácia e Sociedade, do Professor Edson Perini da Faculdade de Farmácia - UFMG.

Em 31 de julho de 2014 estarei completando 33 anos de existência. Nessa idade, o maior homem da História Ocidental já tinha andado sobre as águas, multiplicado pães e peixes, transformado água em vinho, morrido e, de acordo com seus seguidores, ressuscitado. Ou seja, para alguns, é tempo suficiente para cumprir a mais difícil das missões. Mais contemporaneamente, conheço jovens, com a mesma idade ou menos, concluindo seus doutorados, ou mesmo escutando minhas reclamações nos consultórios médicos, odontológicos ou farmacêuticos, consertando meu carro ou me atendendo nos consultórios de advocacia.

A construção de uma carreira pode ser uma história simples para muitas pessoas que receberam a luz assim que nasceram. Para outros, a Estrela de Davi não aponta o caminho de maneira tão clara. Nestes 33 anos,  acredito sim que poderia estar já usufruindo de uma carreira farmacêutica em constante acensão, mas uma história de vida muito singular me deixou, agradecidamente, no primeiro período de faculdade em pleno ano de 2014.

Por que vim parar aqui logo agora? Não é uma resposta difícil, ainda que a história seja longa. Sou o filho mais velho de três irmãos que foram criados juntos, pois nascemos praticamente "um atrás do outro". Meu irmão do meio completou 31 anos em Fevereiro, e o caçula completará 30 anos em Agosto. Crescemos na cidade de Pedro Leopoldo, na região metropolitana de Belo Horizonte. Tivemos uma infância muito humilde, embora não fosse necessariamente pobre. Roupa, comida, vestuário, e até uns bons brinquedos nunca nos faltaram. mas não tivemos uma vida de luxo.

Três dos grandes pilares da minha educação foram o Respeito, o Trabalho e o Estudo. Estes valores pétreos eram rigidamente inseridos em nosso inconsciente através dos conselhos e ordens sábias de minha mãe, que sempre acompanhou muito de perto toda nossa a formação psíquica, social e moral. Desde muito pequenos, gostávamos de jogos de quebra-cabeças, de coletar bichos no quintal e eu, particularmente, desenvolvi um interesse especial por livros e contos. Comecei a escrever histórias infantis muito criança, e ainda no 1º grau (atual Ensino Fundamental), minhas redações eram expostas pelos professores para toda a escola.

Quando concluí a 8ª série (último ano do Ensino Fundamental) minha mãe me inscreveu num exame de seleção para os cursos técnicos do Coltec e Cefet, e fiz a prova mesmo sem saber para quê mesmo estava fazendo. Fui aprovado no Coltec. E comecei a estudar com a intenção de me formar como técnico em eletrônica, que era o que os garotos da minha idade faziam na época. Mas o choque com as ciências exatas mudariam meus planos, para o desespero do meu pai. Fascinado com as ciências aplicadas, optei pelo curso técnico de Química, e me ingressei no caminho mais tortuoso (e não menos exato...) que o Colégio Técnico tinha a oferecer...

Foram Anos Incríveis, exatamente como naquele seriado exibido pela Rede Minas nos anos 80 sobre a vida de Kevin Arnold, o adolescente atrapalhado dos anos 60. O Coltec, além de me capacitar para o exercício de minha nova profissão, me ajudou a desenvolver outras habilidades adormecidas, como o prazer pela arte, da apreciação estética da Literatura, pelo desafio de aprender uma nova língua... E todo esse aparato foi utilizado na escolha do meu curso de Graduação: Letras.

Fui aprovado no Vestibular de 2002, mas já contava com pelo menos dois anos de experiência como Técnico em Química em uma fábrica de cimentos quando consegui emprego em uma Indústria de Diagnósticos em desenvolvimento na Fundação Biominas. Esse ano foi realmente especial para mim, pois foi quando, numa paixão adolescente desenfreada, decidi me casar com a garota que conhecia a menos de um ano, e comecei a  seguir rumos díspares que iriam modificar meus planos completamente. Apeguei-me à indústria de diagnósticos como um bote salva-vidas que deveria me manter emerso  até que concluísse minha Graduação em Letras, mas com o passar do tempo, meu domínio das técnicas de manipulação de reagentes de ELISA e Bioquímica começaram a se destacar.

Formei-me em 2007, mais precisamente no dia 31 de Julho de 2007, dia em que completei 26 anos de idade. Já era pai de uma garotinha de dois anos, havia dado entrada em um apartamento e tinha carteira assinada há pelo menos cinco anos em uma mesma empresa. Também já havia recebido uma promoção e quatro aumentos de salário. Abandonar tudo isso por uma carreira completamente nova, parecia uma loucura, algo muito irresponsável. Minha esposa também ansiava por poder concluir seus estudos, e minha participação nas atividades familiares era fundamental. Meu diploma, por ora, teve que ser arquivado.


Continuei trabalhando com diagnósticos sempre no setor produtivo, mas meu envolvimento com a área me deixava cada vez mais interessado em conhecer os mecanismos pelos quais os reagentes se combinavam formando produtos. E meu destaque era evidente. De Técnico de Fabricação fui promovido à Encarregado de Produção, e então conheci o homem que finalmente iria sacramentar minha carreira de uma vez por todas.

Toda história tem um mito, um ícone, uma pessoa especial e um momento singular que define o que somos de modo extraordinário. Essa pessoa, eu não poderia deixar de mencionar: meu ex-gerente e grandioso amigo, o senhor Carlos Alberto Rosa. Ele assumiu a diretoria da minha empresa numa fase de grande transição, um momento em que a Supervisora de Produção abandonava o barco, tomada pela estafa, deixando um vácuo estratégico que não poderia ser substituído por alguém que não conhecesse profundamente os processos produtivos da empresa. Apesar da minha formação imatura, o "Seu Carlos", como ficou conhecido, reconheceu em mim as virtudes que ele buscava para seu novo Supervisor de Produção, e tão logo pudemos ter nossa primeira conversa ele me revelou seus objetivos. Eu, ao contrário, tinha outros planos: migrar de vez para o setor de Pesquisa e Desenvolvimento que começava a se formar na empresa. Fizemos então um acordo de cavalheiros: eu assumiria temporariamente a Supervisão de Produção e me inscreveria em algum curso superior da área, enquanto ele buscava no mercado alguém que pudesse me substituir quando eu já tivesse bagagem suficiente para investir em Pesquisa.

Nessa época, meu casamento já tinha se esvaído, e me joguei enlouquecidamente na jornada. Trabalhava todos os dias da semana, sábados, domingos, feriados, não raro das sete da manhã às oito da noite. E o "Seu Carlos" cumpriu uma parte do combinado. Contratou um Pesquisador e um Supervisora de Produção, ambos com muitíssima experiência, e cada um fez crescer ainda mais minhas experiências e expectativas em relação ao futuro.

Os recém-contratados eram casados, e com o tempo fui ganhando a afeição dos dois. Nos tornamos amigos, eu frequentava a casa do casal e durante esse período eu tive minha primeira conquista: a aprovação no Vestibular da UFMG 2010 para o curso de Química.

Estávamos todos cumprindo nossa parte do "contrato", mas uma conversa com o "Seu Carlos" em 27 de Julho de 2010 mudou tudo. Ele me chamou em sua sala por volta das 18h30, e depois de discutirmos pequenas frivolidades, perguntei sobre o estado de saúde da Supervisora, que havia se internado dias atrás com uma forte dor de cabeça...


- Ela morreu...


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Pela primeira vez eu vi aquele homem formado na Aeronáutica, e acumulado dezenas de títulos nas áreas de Física e Gestão Empresarial, se desmanchar em lágrimas. Então o AVC - ele novamente - havia quebrado de forma silenciosa e cruel um elo que se formara com tanto esforço. Não perdíamos só uma profissional, perdíamos uma amiga, um suporte, alguém que nos fazia sentir que tudo iria dar certo. E o golpe foi duro demais.

Tive que voltar à minha equipe e reconfortá-la numa fase em que não acreditava em absolutamente mais nada. E o "Seu Carlos", não suportando a pressão, acabou sendo substituído. A nova gestão acreditava que tudo o que a gente realizava até então estava ultrapassado, e com o apoio do Pesquisador viúvo, trataram de me afastar da empresa também, após nove anos de dedicação.

Por sorte, a experiência acumulada me tirou da calçada dos desempregados em rápidos dois meses. Apesar de toda minha trajetória profissional parecer loucura, consegui me fazer convencer na empresa na qual trabalho atualmente, e que me deu a chance e investir no sonho que sempre busquei: Pesquisa e Desenvolvimento. E os campos de atuação da empresa - também de diagnósticos - me fizeram perceber que a escolha da graduação talvez tivesse sido equivocada, e que o curso de Farmácia me tornaria muito mais capacitado a atender as expectativas da minha equipe atual. 

Com carta branca para ser criativo, começar do zero e, de certa forma, fazer o que "eu quiser", hoje trabalho no "emprego dos sonhos" dos farmacêuticos e dos biomédicos. E finalmente, quando acreditava que chegaria o momento de colher de alguns dos frutos que plantei, me coloco este novo desafio: começar (quase) do zero uma graduação rodeado de colegas com seus dezoito e vinte anos que sequer eram nascidos quando a Seleção Brasileira conquistou o Tetracampeonato de Futebol na Copa do Mundo de 94.

E é somente retirando forças de onde só Deus e o ciclo de Krebs conseguem explicar, me proponho a repensar e discutir de maneira ampla o meu papel na sociedade, enquanto profissional da saúde, a tentar entender o porquê da existência desse profissional, a que órgãos ele está associado e como funcionam estes órgãos. Procuro entender também essa complexidade que é o ser humano, em quantos níveis se organiza, em quantas partes pode ser dividido, qual a nossa ligação com essa natureza que nos cerca. Tanto num nível macroscópico, em seus aspectos morfológicos, quanto microscópio, em aspectos bioquímicos, essa "máquina que muitas vezes precisa ser consertada" fornece argumentos fantásticos para se acreditar na existência de um Ser Superior e ao mesmo tempo para se duvidar dele.  E, se o desafio de se chegar ao final deste curso, em jornada dupla, às vésperas, quem sabe, de completar meus quarenta anos de existência seja meu legado, que ele seja conduzido com o mesmo otimismo e bom humor que, em última instância, é também um dos pilares que me fizeram chegar até aqui e me fazem seguir em frente. 


Há noites em que o único pensamento que me vem à mente é desistir. Aquelas noites em que não se consegue conciliar o sono, pois dormir parece desperdiçar demais um tempo em que se deveria estar estudando. Mas, por um desses motivos singulares que não se pode explicar, dentro ou fora da Faculdade existem anjos que nos guiam para a frente, que não nos deixam jamais desistir, que seguram a onda quando a sensação é a de que o mundo todo deveria explodir. 

Existe muita coisa por trás do meu sonho de ser farmacêutico. Nunca quis ser médico, embora tenha um irmão na família (o caçula, de 30 anos), já graduado e que vive financeiramente muito bem, obrigado! Mas não é o que me seduz. Eu quero sim, ganhar bem, dirigir um carrinho legal, me casar novamente com a garota dos meus sonhos (e que já conquistei!). Mas as pessoas em que me espelho não são, nunca foram, os modelos de riqueza, mas os modelos de genialidade, de criatividade, de inventividade que só experiência e prática profissional podem proporcionar. 

Posso em algum momento ter invertido a ordem das coisas e acumulado muita prática e pouquíssima teoria. Mas de alguma forma, tudo só fez a minha trajetória se tornar um pouco mais original.

O diploma de Letras? Vou brincando de usá-lo neste blog até me aposentar. Então vou usá-lo como sempre usei-o a vida inteira: por puro prazer!


















Que venha o 2º período!! 

Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE!"












quinta-feira, 13 de março de 2014

BREVES PALAVRAS DE RETORNO (Não espere um grande texto - no sentido literal)

Da próxima vez em que decidir abrir mão de alguma coisa, peço àqueles que me acompanharam neste blog que me sugiram cortar um braço ou uma perna, porque sem meus textos, definitivamente não posso ficar. Engraçado que, quanto mais obrigações se acumulam à minha tão massacrada agenda, mais sou tentado a espiar velhos textos e desejar expressar novos. Fazer o quê? Algo inscrito na expressão gênica do meu DNA.

Volto este ano com meu blog para matar a saudade das atividades que não me são árduas, pois isso tem me servido de excelente bálsamo. Porque se é bem verdade que os anos têm se passado com uma velocidade impressionante, os dias se arrastam com uma morosidade sádica, o que é bem contraditório, mas faz sentido para 10 entre 10 pessoas que estão lendo isso.

Sempre me impressiono ao notar o quanto sou compreendido ao ser mais contraditório do que coerente. Não que não paute minhas decisões sem o sanção da racionalidade, mas porque acredito que por mais linear que seja a vida, nossa geometria espacial e atômica sugerem um movimento circular, pendular e senoide universais, que sempre nos colocam contra nós mesmos, e somos obrigados a voltar e refletir sobre as decisões de outrora pautadas sobre uma nova experiência.

Há três meses atrás, abandonei este blog.

Hoje estou de volta.

Amanhã, quem sabe!


Abraços e até meu próximo post.

Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE!"
Capela em Dusseldorf na Alemanha - Se a vida é cíclica, quero voltar pra lá também. 

Filosofia de um escritor nostálgico, com algum senso de humor. 


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A DESPEDIDA OU UMA ÚLTIMA CRÔNICA DE FINAL DE ANO

Em meio às chuvas torrenciais que castigam Belo Horizonte durante todo este mês de dezembro de 2013, julgo ser uma boa hora me debruçar mais uma vez sobre um arquivo branco de Word e deixar nesse final de ano mais uma postagem neste blog – ainda que seja a última.  

Cada vez que abro essa silenciosa página, me recordo sempre dos motivos que me levaram a criá-la e a postar em intervalos irregulares, aqueles textos fragmentados da minha alma que aqui estão, e que ao longo dos anos foram capazes de atingir outras almas – não muitas, mas muito caras e especiais para mim, e a elas sou e serei eternamente grato pelo carinho e admiração.

Já faz tanto tempo e ainda me lembro e sinto como se fosse ontem, todo o sentimento de angústia que me abatia ao ingressar novamente na UFMG e perceber quantas dificuldades eu encontraria pelo caminho – aquilo foi realmente uma afronta à minha já comprometida auto-estima, e a criação de um blog no qual eu pudesse fazer algo que de fato gosto e de certa maneira sei  - escrever -  talvez pudesse amenizar a frustração que sentia ao perceber que não era capaz de corresponder às minhas próprias expectativas acadêmicas.

Surgiram daí as Crônicas de Um Escritor Maldito, alcunha infeliz que criei no início do processo, mas que ia ao encontro do que esperava de mim mesmo. Minha auto-imagem ainda era sabotada por pensamentos depressivos e autodestrutivos, mas que logo ganharam a admiração de pessoas como o Augustto Paes, o primeiro amigo a visitar e se inscrever no meu blog, uma pessoa que acompanhou cada palavra que foi escrita nesse meu pequeno espaço, e é claro que a ele sou muito grato por esse carinho especial.

Outras pessoas logo se juntaram a ele, meus irmãos Leonardo e Ramon, sempre fãs, divulgaram meus textos e debatiam críticas de forma apaixonada.  A admiração de outra amiga, Sâmara Miranda, também trouxe várias outras pessoas a conhecerem este blog, principalmente com suas divulgações via Facebook. Ser escritor acabou se tornando minha segunda identidade.

Da fase da depressão vieram meus trinta anos, e uma serenidade que me ensinou a esperar as coisas no seu devido tempo, e a criar os pensamentos certos que produzem os resultados esperados.  A mudança de estilo de vida, proporcionado também pelo maior convívio com meu irmão Ramon, transformaram um Escritor Maldito em Escritor Nostálgico, agora com uma visão muito mais responsável sobre seus próprios atos e reflexões.

Passado o tempo, conheci a pessoa que tem sido a peça fundamental na minha vida: Branca Barcelos, minha companheira desde o dia 06 de abril de 2012 foi uma resposta a todas as minhas questões escatológicas. Com ela, descobri sim, que o Paraíso existe, mas que é preciso fazer por merecê-lo todos os dias. Graças a ela descobri que quando se conquista o mais difícil, todos os outros objetivos se tornam possíveis e prováveis.

Podemos fazer qualquer coisa quando não estamos sozinhos.

Passei a acreditar nisso com uma força e uma fé inquebrantáveis, mesmo quando todas as circunstâncias ainda mostravam que tudo não passava de um castelo de cartas pronto para desmoronar com a primeira tempestade.  Mas quis o Senhor Javé e todos os deuses do Olimpo que minha fé fosse recompensada, e eis que me vejo às portas de 2014 muito mais agradecido e realizado do que estive durante todos estes anos.

Às vezes sei que é mais fácil se solidarizar com o fracasso do próximo do que se alegrar com seu sucesso. Mas ao compartilhar neste blog a alegria de ter alcançado os degraus que há um ano eu imaginava tão distantes, sei que o faço para as pessoas que realmente se alegram ao saberem disso, àqueles citados acima e aos demais que me acompanharam em uma crônica aqui ou acolá.

E é que com muita nostalgia que me despeço de todos vocês, pois não mais postarei crônicas neste blog a partir de 2014. Estarei, contudo, sempre presente nas redes sociais ou na minha página no Facebook:


Espero encontrá-los nesse novo ano, e espero de coração que vocês possam acreditar, de verdade, que TODOS os sonhos se tornam realidade quando se investe VONTADE nesse objetivo. É uma Lei Elementar da Física. Se todos os povos, de todas as culturas, em todas as gerações, em algum momento, tiveram fé em algo que elas não podiam explicar, é porque existe algo – ou alguém - que sempre confirmou e recompensou essa fé.

Acredite em si mesmo. Acredite em sua força interior. Acredite na felicidade e no amor. Acredite nas pessoas. Acredite em um poder superior, seja ele qual for. Qualquer que for o desfecho de sua história, a sua crença terá feito a sua caminhada valer a pena.

FELIZ NATAL A TODOS AQUELES QUE AMO. FELIZ ANO NOVO!!!  A gente se encontra na Casa do Saci...



quarta-feira, 1 de maio de 2013

NUNCA TEVE TÃO BÃO



Escrever em um blog com o nome “Crônicas de Um Escritor Nostálgico” pode transmitir uma ideia errada a respeito da minha personalidade e meu modus operandi padrão.  A Nostalgia é um estado de espírito que se manifesta esporadicamente, fato é que raras vezes me aventuro a atualizar o blog com crônicas nostálgicas, e este é um destes preciosos momentos. Gosto de escrever, mas esse é um esporte ao qual não disponho o tempo do qual gostaria, e não podia deixar passar em branco esse precioso feriado do dia 1º de maio, nosso dia do trabalhador.

É bem verdade que, quando estamos realmente empenhados em construir algo, perseguir um sonho, não existem obstáculos. Isso não é só uma afirmação clichê. Infelizmente, existem milhares e milhares de trabalhadores como eu que passam pela vida esperando algo especial acontecer, e nunca saem de onde estão, porque acham que já trabalham demais, já dão duro demais, já se esforçam demais e nada muda. E a verdade é que o fato de nos levantarmos cedo todas as manhãs e desempenharmos funções mais lucrativas para nossos empregadores do que para nós mesmos não é “trabalhar demais”, estamos apenas cumprindo nossa obrigação, ou, nas palavras de Roberto Shinyashiki, estamos fazendo o que todos fazem.  “O sucesso é construído à noite”, para atingir uma meta especial, é necessário estudar, planejar e se esforçar no horário em que os outros estão curtindo a vida numa boa porque durante a semana já “trabalharam demais”.

Infelizmente a vida é assim e não é justa. Esbravejar, chorar, esmurrar a porta, murmurar, nada disso tira ninguém de onde está.  Extravasar sofrimento só atrai sofrimento. Eis o motivo pelo qual iniciei este post falando da ideia nostálgica por trás da minha personalidade.  Não conheço um ser vivente sobre esta terra que não tenha que lutar todos os dias por sua sobrevivência, em qualquer sentido.  O sofrimento é inerente à vida, mas não precisa ser cantada aos quatro ventos. Quantas pessoas não conhecemos que parecem viver constantemente uma miserável existência, repleta de dor e sofrimentos? Pessoas que sempre que encontramos já sabemos que iremos ouvir um rosário de reclamações de dor, padecimentos físicos, endividamentos, maledicências e tudo o que há de pior na vida? Já percebeu como essas pessoas acabam “envenenando” nosso dia? A impressão que tenho é que só a presença de pessoas assim drena minhas energias, são verdadeiros vampiros da alegria humana...

Além desses, existem aqueles que estão sempre insatisfeitos com tudo: com o governo, com o prefeito, com as músicas, com o time, com seu trabalho, com seu descanso... Não existe uma só pessoa competente, um órgão fiscalizador eficaz, nada escapa à crítica de determinadas pessoa que, para ocultar a própria incapacidade de se encaixar no mundo, apontam o dedo para todos os cantos.  Estes só criticam, falam quando não se pode resolver absolutamente nada, em rodas de amigos, dentro do ônibus. Jamais tomam qualquer atitude, pois acham que “tudo vai sempre ser desse jeito mesmo, fazer o quê?” Podiam pelo menos parar de encher o nosso saco...

E existem aquelas pessoas que aparentam não ter qualquer tipo de problema. Aquele amigo que começa a segunda-feira com um caloroso bom-dia, que diverte qualquer ambiente. Todo grupo tem um “palhaço         da turma", esse no qual sempre tento me enquadrar, não por ter uma vida isenta de problemas, mas por acreditar que, parafraseando uma amiga minha, meus problemas são problemas meus. Existem muitas situações em minha vida que são lamentáveis, mas acredito firmemente que um espírito de criança em qualquer ambiente é fundamental para dar vitalidade a um grupo, a uma família, uma comunidade...

Pessoas felizes se atraem. Rir faz bem para a saúde, estimula o cérebro, libera serotonina e ainda estimula a produção de endorfinas essenciais para que suportemos nosso fardo diário de “trabalhar demais”. E não é só o trabalho não, é todo um conjunto desgastante de fatores: trânsito, obras na cidade, alterações climáticas bruscas, acidentes, assaltos... Trazer toda essa carga negativa à tona só vai piorar o dia e o ambiente de pessoas que já precisam passar pelas mesmas coisas, então por que não ser um agente da alegria em nosso dia-a-dia? Por que não tomar a iniciativa de arrancar sorrisos daqueles cuja vida anda tão sem vida?

Na semana passada, no dia 25 de abril, o Programa Graffite da 98FM, Rádio de Belo Horizonte, divulgou este blog, pois tive o prazer de conhecer pessoalmente os integrantes do programa. Todos os dias, no retorno para casa, escuto aqueles quatro radialistas e comediantes no horário de seis às sete da noite (o programa começa às 17 horas, mas só posso ouvir ao sair do trabalho).  Dudu, Rodrigo, Geraldo Magela e Caju (na foto abaixo não está o Magela, esse de rosa no fundo é o Bruno Berg, que é excepcional!) se apelidam de Os Trapalhões do Rádio, e com um humor sadio e inteligente aliviam as tensões acumuladas ao longo do dia de milhares de pessoas que, como eu, já são fãs incondicionais. Além do humor, o programa possui uma filosofia humanitária, de ajuda a pessoas carentes e necessitadas, divulgam notícias sobre  desaparecidos e de enfermos que  precisam de doação de sangue.  



Identifico-me com a ideologia do programa desde que era transmitido na Rádio Extra FM, e na 98FM eu acompanho desde 2010. De alguma maneira, acabei me sentindo próximo aos apresentadores, pois os ouço diariamente. Durante esse período, houve acontecimentos muito tristes, o Rodrigo Rodrigues perdeu seu pai, o Eduardo perdeu sua mãe de criação... Em momento algum o espírito do programa foi abalado, pois  mesmo em momentos de crise o Eduardo tem uma máxima, em qualquer situação, repita sempre: NUNCA TEVE TÃO BÃO.

É uma frase que faz milagres. De verdade. Já fez em minha vida, pode fazer na sua também. Que tal experimentar, da próxima vez em que perguntarem pra você como vai a vida, ao invés de detalhar sua lista de reclamações, dizer apenas: Nunca teve tão bão!

Muitas vezes, em meus dias inspirados de palhaço no meu dia-a-dia, idealizei que poderia trabalhar como comediante do rádio, como fazem no Graffite. Ou quem sabe com meu próprio show de stand up.  Mas não sei se levaria jeito.  Posso ser bom com as palavras escritas, mas não sei se seria bom no palco, me acho desajeitado, e não tenho essa facilidade para decorar textos... Ah, e distraído também! Muito, mas muito distraído. Vou contar um segredo, espero que fique entre nós: quando fui aprovado no COLTEC, em 1997, meu pai me levou no primeiro dia ao Colégio para eu saber onde ficava (pois morávamos – e eu ainda moro – em Pedro Leopoldo). No segundo dia, fui de ônibus.  Era um ônibus tipo executivo, única opção na época para ir da minha cidade à capital. Ao ver a área da UFMG, puxei a cordinha, mas o ônibus não parou. Continuou seguindo, seguindo, seguindo, e eu me desesperando... Até que um senhor de boa vontade me cutucou e disse: “Garoto, pra descer, você tem que puxar a corda da campainha, e não a da cortina”.

E alguém ainda acha que tenho vocação pra comediante?

Abraços e até meu próximo post.

PS:  A propósito, por falar em pessoas que atingiram uma meta especial, não poderia deixar de citar nosso amado Ayrton Senna da Silva, que nos deixou a exatos 19 anos. Um herói, um mito, um homem que não deixou as mesquinharias do dia-a-dia afastá-lo de seu objetivo principal, o de ser até hoje o melhor piloto de Fórmula 1 que o mundo já conheceu. 



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MÃE


Daqui a exatamente 3 meses, mais precisamente no dia 12 de maio, a maioria de nós não mais se lembrará que há duas semanas uma boate pegou fogo em Santa Maria, levando a óbito 238 jovens que ali estavam. Será o Dia das Mães,  e para um grupo especial de pessoas a dor dessa perda jamais será abrandada... São aquelas mulheres especiais que um dia receberam a dádiva de receber e alimentar dentro de si uma dessas duzentas e tantas vítimas... As mães desses jovens  sentirão eternamente o peso da ferida causada pela inversão natural de ter que enterrar seus próprios filhos.

Não existe nada que nos prepare para sepultar nossos pais. Mas aos pais, sequer passa pela cabeça viver mais que aqueles que de quem cujos lábios saem palavras tão pequenas e tão profundas. Não é só uma dor incurável, é uma completa sensação de fracasso – como se você tivesse falhado justamente com a pessoa que  mais ama, aquela que jurou proteger de todos os males, e que o mundo covardemente tirou de seus braços.

Quando lamento minha falta de sorte, lembro-me que devo ser grato por ter uma filha linda e saudável, e desejo que ela seja feliz acima de qualquer outra coisa. Mas não é o amor que sinto por ela que me intriga, existe  outra pessoa que é capaz de me surpreender, no auge dos meus 31 anos...

Mãe...

A MINHA mãe, essa senhorinha gorducha de olhos cansados, dona de uma força de vontade capaz de transformar carvão em diamante. Tem uma personalidade forte, teimosa, valente, corajosa e incansável e quis o destino que de dentro do seu ventre materno fossem gerados três filhos de personalidade forte e teimosa e valente e corajosa e incansável, além de egocêntrica e ciumenta.  Com autoridade militar, ela nos ensinou a partilharmos nossos bens, nos ensinou a sermos humildes, a não fazermos distinção de pessoas, a valorizarmos o esforço pessoal e o talento individual, a não desistir nunca, nunca, nunca, nunca e NUNCA... Porque quem conhece a minha mãe sabe que ela NUNCA desiste...

Ela tem um AMOR  (maiúsculo) que eu sinto sem conseguir compreender... Não é como o amor de pai, sem menosprezar o amor do meu pai, que é enorme. Mas falo porque eu também sou pai.  Nós, homens, aceitamos o fato de ser pai – é uma convenção social. Nós não nos sentimos pais, nós aprendemos a ser pais vendo outros pais, e a cada manifestação de carinho dos nossos filhos vamos nos afeiçoando a eles e aprendemos a amá-los, e amamos tanto que depois não sabemos como não gostar deles... Mas mãe é diferente... ela já foi um só conosco, ela padece cada lágrima nossa, ela consegue sentir nosso sofrimento como se fosse dela, como se fosse maior nela do que em nós.

Um pai (ainda vou escrever uma crônica sobre Pais) faz coisas pelos filhos como um gesto de doação – e quer um reconhecimento, ainda que bem tardio. A mãe faz coisas pelos filhos como se fizesse para si mesma, ou melhor ainda, e espera que esses reconheçam na própria felicidade o dedo amoroso que os acompanharam durante toda a vida...

Mas a vontade de conquistar o mundo para os filhos, infelizmente, encontra obstáculos ao longo do tempo... Se a sua mãe já passou dos cinquenta anos, sabe bem do que estou falando. Existe um momento em que o corpo físico já não suporta mais os sacrifícios que foram feitos até que os filhos se transformem em homens feitos. Deveria ser este o momento em que os pais decidem descansar, gozar a vida, lembrar que são homens e mulheres cheios de sonhos adiados por muitos anos...

Deveria...

Quem conhece minha família sabe que meus pais conseguiram, depois de muitos sacrifícios, construir em um terreno afastado da grande selva urbana, a casa dos sonhos. Pelo menos a casa dos sonhos deles. E vivem maravilhosamente num pedaço de paraíso que se tornou refúgio para mim, meus irmãos, parentes e amigos que visitam a Casa do Saci constantemente e não se cansam de cantar suas maravilhas aos quatro cantos do mundo. Pois a dona desse paraíso, em uma conversa daquelas sérias que só ela sabe ter, me disse que para te ver feliz meu filho, vendo tudo, casa, carro e apartamento, como até lama pra te colocar num bom caminho.

E não é pra chorar e se emocionar com uma demonstração de amor desse tamanho? De alguém que já deveria estar vendo os filhos tranquilos e felizes? Minha mãe, que já não tem os ossos fortes como tinha há trinta anos, que passou recentemente por uma cirurgia de esôfago, enxerga mal e sente sempre fortes dores na coluna, toparia passar por tudo de novo e mais um pouco, só pra me ver feliz... Mamãe é tão bonitinha que no mesmo dia, antes de sair para dar seu plantão noturno no Hospital das Clínicas, me pediu quase em súplica: meu filho, vou ter que abusar de você, mas juro que é só um pouquinho... você pode regar minhas rosas hoje pra mim?

E COMO EU NÃO VOU REGAR AS ROSAS PRA QUEM ACABOU DE ME DIZER QUE VAI ABRIR MÃO DE TUDO O QUE TEM POR MIM?

Minha mãe me pede pequenos favores diários porque sabe que eu faço de coração. Porque eu conheço sua rotina, sei o que ela pensa e sente. Talvez você, filho ou filha que esteja aí sentado lendo essa crônica, esteja se sensibilizando e pensando em sua mãe agora. Então você pensa que seria mágico se você fosse até ela nesse momento, desse um beijo e dissesse," mãe eu te amo! Obrigado por tudo o que a senhora fez e faz por mim". Sabe o que eu digo pra você? Continuar dizendo pra sua mãe que você a ama, não vai adiantar NADA se você não começar a ter vergonha na cara e arrumar sua cama, se você não vai até ela e oferece ajuda pra passar um pano nesse chão que você pisa todos os dias, ou pra lavar o vaso sanitário em que você defeca e ela é obrigada a lavar. Dizer palavras doces faz muito bem, mas aliviar as dores do corpo de sua mãe, picando aquela cenoura pro almoço, ou lavando sua roupa de vez em quando, opera verdadeiros milagres.

Sabe aquela casca de banana que você jogou no cesto de lixo e você viu cair no chão? É pra sua mãe pegar pra você, não é? Antes ou depois de você dizer que a ama? Grande gesto de amor...

Sabe aquela comida que ela fez pra você e você não comeu, e ficou velha? Que tal usá-la pra fazer a janta só hoje, ou um mexido, ao invés de tirar sua mãe da cama, ou do seu descanso, ou de sua novela, só pra ir pro fogão fazer comida nova pro marmanjo? Ou sua ideia era esperar a janta ficar pronta (enquanto você descansa) pra depois dizer pra ela o quanto a ama?

A maioria dos filhos tem a falsa ideia de que pra mãe é sempre um prazer fazer comida e lavar roupa, quando a verdade é que o grande prazer das mães é ver os filhos felizes. Se tiver que ser lavando roupa, que seja lavando roupa, se tiver que ser fazendo comida, que seja... E muitas vezes, na correria de ganhar a vida, ganhar o dia, trabalhar e estudar, acabamos mesmo precisando de um suporte – e achamos que nossas mães são sempre o caminho mais rápido e seguro. E eu seria um hipócrita se dissesse que não conto muito com a ajuda da minha querida, às vezes. Mas não acho justo, nem bonito, que a troco de não fazer nada, a pobre coitada lave, cozinhe, passe e arrume casa para mim.

Afinal de contas, seus ossos já não são mais aqueles, sua mente já não é mais aquela, sua força também não... apesar de eu ainda sentir tremores quando ela ameaça me dar uns safanões, sei que a força do seu braço seria incapaz de me provocar uma dor real. Os anos vão passando, e os papéis se invertem. As crianças se tornam homens (e mulheres). Pais e mães se tornam avós, e os cuidados que eles nos dedicavam agora vão precisar – de nós, seus filhos.

Quer maior prova de amor do que amparar seu pai e sua mãe com o braço, quando suas pernas já não são fortes o bastante para levá-los aonde quer que precisem ir? Quer maior prova de amor do que colocá-los pra dormir, levá-los ao médico? Cuidar de suas funções mais básicas quando eles já não conseguem se controlar sozinhos? Limpá-los, dar-lhes banho, se necessário?

Você não assume essa missão no momento de necessidade, é preciso que vá  treinando, se envolvendo cada vez mais com a intimidade e as dores dos seus pais para que – quando menos se esperar – eles já tenham se entregado inteiramente aos seus cuidados, confiantes e eternamente gratos.

E sabiamente você terá a consciência que tudo, absolutamente TUDO o que fizer não será suficiente para lhes retribuir o que fizeram por você ao longo da vida...

E que o último sono das pessoas que mais lhe amaram na vida venha sem o pegar desprevenido, sem que você tivesse dito todas as vezes o quanto é grato... o quanto os ama... o quanto os amou...

E o final dessa crônica não podia ser mais clichê...

Mãe – Eu te amo!