quinta-feira, 13 de março de 2014

BREVES PALAVRAS DE RETORNO (Não espere um grande texto - no sentido literal)

Da próxima vez em que decidir abrir mão de alguma coisa, peço àqueles que me acompanharam neste blog que me sugiram cortar um braço ou uma perna, porque sem meus textos, definitivamente não posso ficar. Engraçado que, quanto mais obrigações se acumulam à minha tão massacrada agenda, mais sou tentado a espiar velhos textos e desejar expressar novos. Fazer o quê? Algo inscrito na expressão gênica do meu DNA.

Volto este ano com meu blog para matar a saudade das atividades que não me são árduas, pois isso tem me servido de excelente bálsamo. Porque se é bem verdade que os anos têm se passado com uma velocidade impressionante, os dias se arrastam com uma morosidade sádica, o que é bem contraditório, mas faz sentido para 10 entre 10 pessoas que estão lendo isso.

Sempre me impressiono ao notar o quanto sou compreendido ao ser mais contraditório do que coerente. Não que não paute minhas decisões sem o sanção da racionalidade, mas porque acredito que por mais linear que seja a vida, nossa geometria espacial e atômica sugerem um movimento circular, pendular e senoide universais, que sempre nos colocam contra nós mesmos, e somos obrigados a voltar e refletir sobre as decisões de outrora pautadas sobre uma nova experiência.

Há três meses atrás, abandonei este blog.

Hoje estou de volta.

Amanhã, quem sabe!


Abraços e até meu próximo post.

Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE!"
Capela em Dusseldorf na Alemanha - Se a vida é cíclica, quero voltar pra lá também. 

Filosofia de um escritor nostálgico, com algum senso de humor. 


segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A DESPEDIDA OU UMA ÚLTIMA CRÔNICA DE FINAL DE ANO

Em meio às chuvas torrenciais que castigam Belo Horizonte durante todo este mês de dezembro de 2013, julgo ser uma boa hora me debruçar mais uma vez sobre um arquivo branco de Word e deixar nesse final de ano mais uma postagem neste blog – ainda que seja a última.  

Cada vez que abro essa silenciosa página, me recordo sempre dos motivos que me levaram a criá-la e a postar em intervalos irregulares, aqueles textos fragmentados da minha alma que aqui estão, e que ao longo dos anos foram capazes de atingir outras almas – não muitas, mas muito caras e especiais para mim, e a elas sou e serei eternamente grato pelo carinho e admiração.

Já faz tanto tempo e ainda me lembro e sinto como se fosse ontem, todo o sentimento de angústia que me abatia ao ingressar novamente na UFMG e perceber quantas dificuldades eu encontraria pelo caminho – aquilo foi realmente uma afronta à minha já comprometida auto-estima, e a criação de um blog no qual eu pudesse fazer algo que de fato gosto e de certa maneira sei  - escrever -  talvez pudesse amenizar a frustração que sentia ao perceber que não era capaz de corresponder às minhas próprias expectativas acadêmicas.

Surgiram daí as Crônicas de Um Escritor Maldito, alcunha infeliz que criei no início do processo, mas que ia ao encontro do que esperava de mim mesmo. Minha auto-imagem ainda era sabotada por pensamentos depressivos e autodestrutivos, mas que logo ganharam a admiração de pessoas como o Augustto Paes, o primeiro amigo a visitar e se inscrever no meu blog, uma pessoa que acompanhou cada palavra que foi escrita nesse meu pequeno espaço, e é claro que a ele sou muito grato por esse carinho especial.

Outras pessoas logo se juntaram a ele, meus irmãos Leonardo e Ramon, sempre fãs, divulgaram meus textos e debatiam críticas de forma apaixonada.  A admiração de outra amiga, Sâmara Miranda, também trouxe várias outras pessoas a conhecerem este blog, principalmente com suas divulgações via Facebook. Ser escritor acabou se tornando minha segunda identidade.

Da fase da depressão vieram meus trinta anos, e uma serenidade que me ensinou a esperar as coisas no seu devido tempo, e a criar os pensamentos certos que produzem os resultados esperados.  A mudança de estilo de vida, proporcionado também pelo maior convívio com meu irmão Ramon, transformaram um Escritor Maldito em Escritor Nostálgico, agora com uma visão muito mais responsável sobre seus próprios atos e reflexões.

Passado o tempo, conheci a pessoa que tem sido a peça fundamental na minha vida: Branca Barcelos, minha companheira desde o dia 06 de abril de 2012 foi uma resposta a todas as minhas questões escatológicas. Com ela, descobri sim, que o Paraíso existe, mas que é preciso fazer por merecê-lo todos os dias. Graças a ela descobri que quando se conquista o mais difícil, todos os outros objetivos se tornam possíveis e prováveis.

Podemos fazer qualquer coisa quando não estamos sozinhos.

Passei a acreditar nisso com uma força e uma fé inquebrantáveis, mesmo quando todas as circunstâncias ainda mostravam que tudo não passava de um castelo de cartas pronto para desmoronar com a primeira tempestade.  Mas quis o Senhor Javé e todos os deuses do Olimpo que minha fé fosse recompensada, e eis que me vejo às portas de 2014 muito mais agradecido e realizado do que estive durante todos estes anos.

Às vezes sei que é mais fácil se solidarizar com o fracasso do próximo do que se alegrar com seu sucesso. Mas ao compartilhar neste blog a alegria de ter alcançado os degraus que há um ano eu imaginava tão distantes, sei que o faço para as pessoas que realmente se alegram ao saberem disso, àqueles citados acima e aos demais que me acompanharam em uma crônica aqui ou acolá.

E é que com muita nostalgia que me despeço de todos vocês, pois não mais postarei crônicas neste blog a partir de 2014. Estarei, contudo, sempre presente nas redes sociais ou na minha página no Facebook:


Espero encontrá-los nesse novo ano, e espero de coração que vocês possam acreditar, de verdade, que TODOS os sonhos se tornam realidade quando se investe VONTADE nesse objetivo. É uma Lei Elementar da Física. Se todos os povos, de todas as culturas, em todas as gerações, em algum momento, tiveram fé em algo que elas não podiam explicar, é porque existe algo – ou alguém - que sempre confirmou e recompensou essa fé.

Acredite em si mesmo. Acredite em sua força interior. Acredite na felicidade e no amor. Acredite nas pessoas. Acredite em um poder superior, seja ele qual for. Qualquer que for o desfecho de sua história, a sua crença terá feito a sua caminhada valer a pena.

FELIZ NATAL A TODOS AQUELES QUE AMO. FELIZ ANO NOVO!!!  A gente se encontra na Casa do Saci...



quarta-feira, 1 de maio de 2013

NUNCA TEVE TÃO BÃO



Escrever em um blog com o nome “Crônicas de Um Escritor Nostálgico” pode transmitir uma ideia errada a respeito da minha personalidade e meu modus operandi padrão.  A Nostalgia é um estado de espírito que se manifesta esporadicamente, fato é que raras vezes me aventuro a atualizar o blog com crônicas nostálgicas, e este é um destes preciosos momentos. Gosto de escrever, mas esse é um esporte ao qual não disponho o tempo do qual gostaria, e não podia deixar passar em branco esse precioso feriado do dia 1º de maio, nosso dia do trabalhador.

É bem verdade que, quando estamos realmente empenhados em construir algo, perseguir um sonho, não existem obstáculos. Isso não é só uma afirmação clichê. Infelizmente, existem milhares e milhares de trabalhadores como eu que passam pela vida esperando algo especial acontecer, e nunca saem de onde estão, porque acham que já trabalham demais, já dão duro demais, já se esforçam demais e nada muda. E a verdade é que o fato de nos levantarmos cedo todas as manhãs e desempenharmos funções mais lucrativas para nossos empregadores do que para nós mesmos não é “trabalhar demais”, estamos apenas cumprindo nossa obrigação, ou, nas palavras de Roberto Shinyashiki, estamos fazendo o que todos fazem.  “O sucesso é construído à noite”, para atingir uma meta especial, é necessário estudar, planejar e se esforçar no horário em que os outros estão curtindo a vida numa boa porque durante a semana já “trabalharam demais”.

Infelizmente a vida é assim e não é justa. Esbravejar, chorar, esmurrar a porta, murmurar, nada disso tira ninguém de onde está.  Extravasar sofrimento só atrai sofrimento. Eis o motivo pelo qual iniciei este post falando da ideia nostálgica por trás da minha personalidade.  Não conheço um ser vivente sobre esta terra que não tenha que lutar todos os dias por sua sobrevivência, em qualquer sentido.  O sofrimento é inerente à vida, mas não precisa ser cantada aos quatro ventos. Quantas pessoas não conhecemos que parecem viver constantemente uma miserável existência, repleta de dor e sofrimentos? Pessoas que sempre que encontramos já sabemos que iremos ouvir um rosário de reclamações de dor, padecimentos físicos, endividamentos, maledicências e tudo o que há de pior na vida? Já percebeu como essas pessoas acabam “envenenando” nosso dia? A impressão que tenho é que só a presença de pessoas assim drena minhas energias, são verdadeiros vampiros da alegria humana...

Além desses, existem aqueles que estão sempre insatisfeitos com tudo: com o governo, com o prefeito, com as músicas, com o time, com seu trabalho, com seu descanso... Não existe uma só pessoa competente, um órgão fiscalizador eficaz, nada escapa à crítica de determinadas pessoa que, para ocultar a própria incapacidade de se encaixar no mundo, apontam o dedo para todos os cantos.  Estes só criticam, falam quando não se pode resolver absolutamente nada, em rodas de amigos, dentro do ônibus. Jamais tomam qualquer atitude, pois acham que “tudo vai sempre ser desse jeito mesmo, fazer o quê?” Podiam pelo menos parar de encher o nosso saco...

E existem aquelas pessoas que aparentam não ter qualquer tipo de problema. Aquele amigo que começa a segunda-feira com um caloroso bom-dia, que diverte qualquer ambiente. Todo grupo tem um “palhaço         da turma", esse no qual sempre tento me enquadrar, não por ter uma vida isenta de problemas, mas por acreditar que, parafraseando uma amiga minha, meus problemas são problemas meus. Existem muitas situações em minha vida que são lamentáveis, mas acredito firmemente que um espírito de criança em qualquer ambiente é fundamental para dar vitalidade a um grupo, a uma família, uma comunidade...

Pessoas felizes se atraem. Rir faz bem para a saúde, estimula o cérebro, libera serotonina e ainda estimula a produção de endorfinas essenciais para que suportemos nosso fardo diário de “trabalhar demais”. E não é só o trabalho não, é todo um conjunto desgastante de fatores: trânsito, obras na cidade, alterações climáticas bruscas, acidentes, assaltos... Trazer toda essa carga negativa à tona só vai piorar o dia e o ambiente de pessoas que já precisam passar pelas mesmas coisas, então por que não ser um agente da alegria em nosso dia-a-dia? Por que não tomar a iniciativa de arrancar sorrisos daqueles cuja vida anda tão sem vida?

Na semana passada, no dia 25 de abril, o Programa Graffite da 98FM, Rádio de Belo Horizonte, divulgou este blog, pois tive o prazer de conhecer pessoalmente os integrantes do programa. Todos os dias, no retorno para casa, escuto aqueles quatro radialistas e comediantes no horário de seis às sete da noite (o programa começa às 17 horas, mas só posso ouvir ao sair do trabalho).  Dudu, Rodrigo, Geraldo Magela e Caju (na foto abaixo não está o Magela, esse de rosa no fundo é o Bruno Berg, que é excepcional!) se apelidam de Os Trapalhões do Rádio, e com um humor sadio e inteligente aliviam as tensões acumuladas ao longo do dia de milhares de pessoas que, como eu, já são fãs incondicionais. Além do humor, o programa possui uma filosofia humanitária, de ajuda a pessoas carentes e necessitadas, divulgam notícias sobre  desaparecidos e de enfermos que  precisam de doação de sangue.  



Identifico-me com a ideologia do programa desde que era transmitido na Rádio Extra FM, e na 98FM eu acompanho desde 2010. De alguma maneira, acabei me sentindo próximo aos apresentadores, pois os ouço diariamente. Durante esse período, houve acontecimentos muito tristes, o Rodrigo Rodrigues perdeu seu pai, o Eduardo perdeu sua mãe de criação... Em momento algum o espírito do programa foi abalado, pois  mesmo em momentos de crise o Eduardo tem uma máxima, em qualquer situação, repita sempre: NUNCA TEVE TÃO BÃO.

É uma frase que faz milagres. De verdade. Já fez em minha vida, pode fazer na sua também. Que tal experimentar, da próxima vez em que perguntarem pra você como vai a vida, ao invés de detalhar sua lista de reclamações, dizer apenas: Nunca teve tão bão!

Muitas vezes, em meus dias inspirados de palhaço no meu dia-a-dia, idealizei que poderia trabalhar como comediante do rádio, como fazem no Graffite. Ou quem sabe com meu próprio show de stand up.  Mas não sei se levaria jeito.  Posso ser bom com as palavras escritas, mas não sei se seria bom no palco, me acho desajeitado, e não tenho essa facilidade para decorar textos... Ah, e distraído também! Muito, mas muito distraído. Vou contar um segredo, espero que fique entre nós: quando fui aprovado no COLTEC, em 1997, meu pai me levou no primeiro dia ao Colégio para eu saber onde ficava (pois morávamos – e eu ainda moro – em Pedro Leopoldo). No segundo dia, fui de ônibus.  Era um ônibus tipo executivo, única opção na época para ir da minha cidade à capital. Ao ver a área da UFMG, puxei a cordinha, mas o ônibus não parou. Continuou seguindo, seguindo, seguindo, e eu me desesperando... Até que um senhor de boa vontade me cutucou e disse: “Garoto, pra descer, você tem que puxar a corda da campainha, e não a da cortina”.

E alguém ainda acha que tenho vocação pra comediante?

Abraços e até meu próximo post.

PS:  A propósito, por falar em pessoas que atingiram uma meta especial, não poderia deixar de citar nosso amado Ayrton Senna da Silva, que nos deixou a exatos 19 anos. Um herói, um mito, um homem que não deixou as mesquinharias do dia-a-dia afastá-lo de seu objetivo principal, o de ser até hoje o melhor piloto de Fórmula 1 que o mundo já conheceu. 



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MÃE


Daqui a exatamente 3 meses, mais precisamente no dia 12 de maio, a maioria de nós não mais se lembrará que há duas semanas uma boate pegou fogo em Santa Maria, levando a óbito 238 jovens que ali estavam. Será o Dia das Mães,  e para um grupo especial de pessoas a dor dessa perda jamais será abrandada... São aquelas mulheres especiais que um dia receberam a dádiva de receber e alimentar dentro de si uma dessas duzentas e tantas vítimas... As mães desses jovens  sentirão eternamente o peso da ferida causada pela inversão natural de ter que enterrar seus próprios filhos.

Não existe nada que nos prepare para sepultar nossos pais. Mas aos pais, sequer passa pela cabeça viver mais que aqueles que de quem cujos lábios saem palavras tão pequenas e tão profundas. Não é só uma dor incurável, é uma completa sensação de fracasso – como se você tivesse falhado justamente com a pessoa que  mais ama, aquela que jurou proteger de todos os males, e que o mundo covardemente tirou de seus braços.

Quando lamento minha falta de sorte, lembro-me que devo ser grato por ter uma filha linda e saudável, e desejo que ela seja feliz acima de qualquer outra coisa. Mas não é o amor que sinto por ela que me intriga, existe  outra pessoa que é capaz de me surpreender, no auge dos meus 31 anos...

Mãe...

A MINHA mãe, essa senhorinha gorducha de olhos cansados, dona de uma força de vontade capaz de transformar carvão em diamante. Tem uma personalidade forte, teimosa, valente, corajosa e incansável e quis o destino que de dentro do seu ventre materno fossem gerados três filhos de personalidade forte e teimosa e valente e corajosa e incansável, além de egocêntrica e ciumenta.  Com autoridade militar, ela nos ensinou a partilharmos nossos bens, nos ensinou a sermos humildes, a não fazermos distinção de pessoas, a valorizarmos o esforço pessoal e o talento individual, a não desistir nunca, nunca, nunca, nunca e NUNCA... Porque quem conhece a minha mãe sabe que ela NUNCA desiste...

Ela tem um AMOR  (maiúsculo) que eu sinto sem conseguir compreender... Não é como o amor de pai, sem menosprezar o amor do meu pai, que é enorme. Mas falo porque eu também sou pai.  Nós, homens, aceitamos o fato de ser pai – é uma convenção social. Nós não nos sentimos pais, nós aprendemos a ser pais vendo outros pais, e a cada manifestação de carinho dos nossos filhos vamos nos afeiçoando a eles e aprendemos a amá-los, e amamos tanto que depois não sabemos como não gostar deles... Mas mãe é diferente... ela já foi um só conosco, ela padece cada lágrima nossa, ela consegue sentir nosso sofrimento como se fosse dela, como se fosse maior nela do que em nós.

Um pai (ainda vou escrever uma crônica sobre Pais) faz coisas pelos filhos como um gesto de doação – e quer um reconhecimento, ainda que bem tardio. A mãe faz coisas pelos filhos como se fizesse para si mesma, ou melhor ainda, e espera que esses reconheçam na própria felicidade o dedo amoroso que os acompanharam durante toda a vida...

Mas a vontade de conquistar o mundo para os filhos, infelizmente, encontra obstáculos ao longo do tempo... Se a sua mãe já passou dos cinquenta anos, sabe bem do que estou falando. Existe um momento em que o corpo físico já não suporta mais os sacrifícios que foram feitos até que os filhos se transformem em homens feitos. Deveria ser este o momento em que os pais decidem descansar, gozar a vida, lembrar que são homens e mulheres cheios de sonhos adiados por muitos anos...

Deveria...

Quem conhece minha família sabe que meus pais conseguiram, depois de muitos sacrifícios, construir em um terreno afastado da grande selva urbana, a casa dos sonhos. Pelo menos a casa dos sonhos deles. E vivem maravilhosamente num pedaço de paraíso que se tornou refúgio para mim, meus irmãos, parentes e amigos que visitam a Casa do Saci constantemente e não se cansam de cantar suas maravilhas aos quatro cantos do mundo. Pois a dona desse paraíso, em uma conversa daquelas sérias que só ela sabe ter, me disse que para te ver feliz meu filho, vendo tudo, casa, carro e apartamento, como até lama pra te colocar num bom caminho.

E não é pra chorar e se emocionar com uma demonstração de amor desse tamanho? De alguém que já deveria estar vendo os filhos tranquilos e felizes? Minha mãe, que já não tem os ossos fortes como tinha há trinta anos, que passou recentemente por uma cirurgia de esôfago, enxerga mal e sente sempre fortes dores na coluna, toparia passar por tudo de novo e mais um pouco, só pra me ver feliz... Mamãe é tão bonitinha que no mesmo dia, antes de sair para dar seu plantão noturno no Hospital das Clínicas, me pediu quase em súplica: meu filho, vou ter que abusar de você, mas juro que é só um pouquinho... você pode regar minhas rosas hoje pra mim?

E COMO EU NÃO VOU REGAR AS ROSAS PRA QUEM ACABOU DE ME DIZER QUE VAI ABRIR MÃO DE TUDO O QUE TEM POR MIM?

Minha mãe me pede pequenos favores diários porque sabe que eu faço de coração. Porque eu conheço sua rotina, sei o que ela pensa e sente. Talvez você, filho ou filha que esteja aí sentado lendo essa crônica, esteja se sensibilizando e pensando em sua mãe agora. Então você pensa que seria mágico se você fosse até ela nesse momento, desse um beijo e dissesse," mãe eu te amo! Obrigado por tudo o que a senhora fez e faz por mim". Sabe o que eu digo pra você? Continuar dizendo pra sua mãe que você a ama, não vai adiantar NADA se você não começar a ter vergonha na cara e arrumar sua cama, se você não vai até ela e oferece ajuda pra passar um pano nesse chão que você pisa todos os dias, ou pra lavar o vaso sanitário em que você defeca e ela é obrigada a lavar. Dizer palavras doces faz muito bem, mas aliviar as dores do corpo de sua mãe, picando aquela cenoura pro almoço, ou lavando sua roupa de vez em quando, opera verdadeiros milagres.

Sabe aquela casca de banana que você jogou no cesto de lixo e você viu cair no chão? É pra sua mãe pegar pra você, não é? Antes ou depois de você dizer que a ama? Grande gesto de amor...

Sabe aquela comida que ela fez pra você e você não comeu, e ficou velha? Que tal usá-la pra fazer a janta só hoje, ou um mexido, ao invés de tirar sua mãe da cama, ou do seu descanso, ou de sua novela, só pra ir pro fogão fazer comida nova pro marmanjo? Ou sua ideia era esperar a janta ficar pronta (enquanto você descansa) pra depois dizer pra ela o quanto a ama?

A maioria dos filhos tem a falsa ideia de que pra mãe é sempre um prazer fazer comida e lavar roupa, quando a verdade é que o grande prazer das mães é ver os filhos felizes. Se tiver que ser lavando roupa, que seja lavando roupa, se tiver que ser fazendo comida, que seja... E muitas vezes, na correria de ganhar a vida, ganhar o dia, trabalhar e estudar, acabamos mesmo precisando de um suporte – e achamos que nossas mães são sempre o caminho mais rápido e seguro. E eu seria um hipócrita se dissesse que não conto muito com a ajuda da minha querida, às vezes. Mas não acho justo, nem bonito, que a troco de não fazer nada, a pobre coitada lave, cozinhe, passe e arrume casa para mim.

Afinal de contas, seus ossos já não são mais aqueles, sua mente já não é mais aquela, sua força também não... apesar de eu ainda sentir tremores quando ela ameaça me dar uns safanões, sei que a força do seu braço seria incapaz de me provocar uma dor real. Os anos vão passando, e os papéis se invertem. As crianças se tornam homens (e mulheres). Pais e mães se tornam avós, e os cuidados que eles nos dedicavam agora vão precisar – de nós, seus filhos.

Quer maior prova de amor do que amparar seu pai e sua mãe com o braço, quando suas pernas já não são fortes o bastante para levá-los aonde quer que precisem ir? Quer maior prova de amor do que colocá-los pra dormir, levá-los ao médico? Cuidar de suas funções mais básicas quando eles já não conseguem se controlar sozinhos? Limpá-los, dar-lhes banho, se necessário?

Você não assume essa missão no momento de necessidade, é preciso que vá  treinando, se envolvendo cada vez mais com a intimidade e as dores dos seus pais para que – quando menos se esperar – eles já tenham se entregado inteiramente aos seus cuidados, confiantes e eternamente gratos.

E sabiamente você terá a consciência que tudo, absolutamente TUDO o que fizer não será suficiente para lhes retribuir o que fizeram por você ao longo da vida...

E que o último sono das pessoas que mais lhe amaram na vida venha sem o pegar desprevenido, sem que você tivesse dito todas as vezes o quanto é grato... o quanto os ama... o quanto os amou...

E o final dessa crônica não podia ser mais clichê...

Mãe – Eu te amo!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O ENEAGRAMA OU SÓ MAIS UMA CRÔNICA DE FIM DE ANO

O Dia Em Que a Mão de Deus Tocou é o nome de um blog criado por mim há uns três ou quatro anos pra divulgar o projeto de um livro com esse título que comecei a escrever... O blog ainda está vivo, se você digitar isso aí no Google provavelmente vai ser direcionado diretamente pra ele... e vai perceber que o livro nada tem de religioso, embora ligeiramente metafísico. É uma história de adolescentes com poderes, baseado em alguns dos princípios do Eneagrama, um símbolo antigo que hoje é usado como ferramenta para avaliação de pessoas e é muito famoso entre as empresas de recrutamento e recursos humanos.

Fui submetido à um teste de personalidade através dos fundamentos do Eneagrama há um ano, e enquadrado em dois subtipos distintos: Intelectual e Pacificador. Para quem nunca ouviu falar, o Eneagrama descreve nove subtipos de personalidade presentes em todos os seres humanos, alguns em maior ou menor evidência, e a busca da felicidade consiste justamente no equilíbrio entre esses nove tipos (Caso queira saber mais, visite: http://www.ieneagrama.com.br/, entre outros). 

O diagnóstico não me surpreendeu. De fato, na época em que o teste foi aplicado, já tinha assumido pra mim mesmo uma postura mais pacifista diante das tempestades que me abatem diariamente, e aos poucos fui adquirindo aqui mesmo neste blog um tom mais leve e mais humanitário - que foi inclusive marcado pela mudança de nome do blog - de Crônicas de Um Escritor Maldito para o atual Crônicas de Um Escritor Nostálgico - que soa menos agressivo e amargo. A serenidade é um dom que precisa ser cultivado, e é balsâmica não só para a alma do sereno mas para aqueles que convivem com ele. 

Todos os dias quero acordar e perceber que as pessoas que me rodeiam, que compartilham comigo compulsoriamente horas preciosas do seu dia, se alegram de verdade por estar em minha companhia, a ponto de minha simples lembrança se tornar motivo de sorriso e paz. Nem sempre é fácil Mas a filosofia de que "a opinião alheia a meu respeito não importa" não é um preceito que costumo adotar. Gosto de me adaptar a vários tipos de gostos, o que não quer dizer que eu adote vários tipos de rostos. Gosto de me adequar, desde que o que se espera de mim seja algo que está em mim, dentro da esfera dos princípios fundamentais do caráter que herdei dos meus pais e que vou carregar pra toda a vida... Noções abstratas de verdade, justiça, lealdade, fidelidade, respeito, têm um peso enorme em minha consciência, e sempre que cedi às tentações de quebrar qualquer um destes valores o preço pago foi alto demais... 

Bem, um dos vícios descritos para o subtipo Pacificador é justamente a adoção de uma certa aversão por conflitos de opinião e interesse. E eles são inevitáveis. Em uma de suas antigas canções, Humberto Gessinger, da extinta banda Engenheiros do Hawaí, dizia muito sabiamente: "Se queres paz, te prepara para a guerra. Se não queres nada, descanse em paz". Desgraçadamente, numa sociedade ocidental cristã, não existe espaço para que as máximas do maior fundador de religiões de todos os tempos, aquele que se disse Deus Todo-Poderoso feito homem, capaz inclusive de ser um marco divisor de nosso calendário, sejam postas em prática (vou transcrever pra não dizerem que inventei): "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; (Lucas 6, 29). Infelizmente, os seguidores desse senhor estão cansados demais, revoltados demais, ou simplesmente preguiçosos demais, para colocar em prática as palavras de quem chamam de Mestre. Acabam não se tornando seguidores, apenas fãs (ouvi essa última frase de um noticiário americano mas agora não me lembro do entrevistado. Sorry!). Não raro, tecem impropérios contra toda a sorte de gente no mundo, desde a fofoqueira do setor tal, a faxineira, a vizinha da rua de cima, o chato do ônibus... Todos uns ignorantes, mal-amados, sem educação que deviam levar muita surra da vida ainda pra aprender a respeitar os mais velhos, os mais novos, os mais pobres, os mais ricos... (no fundo, os “mais-eu”)  Quando se fala de noticiários então, sempre escuto opiniões favoráveis a penas cruéis, severas e desumanas, desde trabalhos forçados a extração dos testículos aos autores desse ou daquele crime.  Demagogia à parte, também sou a favor de penas mais duras para ladrões e estupradores, mas eu posso dizer porque afinal de contas, não sou seguidor do mestre... 

Enfim, o pacifismo tem seu preço. "Se queres paz, te prepara para a guerra". Com o tempo, aprendemos na prática umas verdades sobre o ser humano que sempre soubemos, mas que de certa forma ignoramos. Sabe aqueles jargões e ditados prontos: "Quem não chora, não mama." Ou "Se você não decide, outro decide por você"? Pois foram baseados em fatos reais. O pacifista, ou o pseudo-pacifista, o pacífico, muitas vezes se confunde (acaba confundindo a si mesmo) com o apático, o sem-cor, sem personalidade, sem decisão, sem fibra. Acaba negando-se a si mesmo para evitar conflitos. Esse é o limite perigoso entre aquele que tenta agradar e aquele que não quer se comprometer. E ao atravessar essa linha tênue, o pacifista acaba provocando justamente o oposto do que gostaria, e o que é pior, com a consciência tranquila. "Se não queres nada, descanse em paz". 

Pode não parecer, mas o pacifista sofre sim. Muitas vezes, as pessoas confundem, acreditam que, por ser uma pessoa de hábitos moderados, não tem sentimentos. O pacifista acha que vai conquistar o melhor das pessoas simplesmente sendo bom e generoso, mas não é o que ocorre. Ele se decepciona, e muitas vezes a decepção vem de pessoas muito próximas. Sentindo que o pacifista é fraco, as pessoas o usam para exercitar sua força, para extravasar sua agressividade, pois já comprovaram que, tal qual um cão obediente, ele irá se limitar a abaixar a cabeça, resignado, e voltará abanando o rabo, sem mágoa, implorando por migalhas de consideração. 

As pessoas aprenderam a respeitar a força. Dinheiro, inteligência, vitalidade, eloquência, tudo isso produz força. Você acha que respeita o amor? Mentira! Você respeita a força. Acha que respeita a sensibilidade? Outra mentira! A ÚNICA coisa que respeitamos é a FORÇA. Pessoas sem amor próprio, sem opinião, deprimidas, confusas, lentas, representam tudo aquilo que NÃO respeitamos. Não interessa se é sua mãe. Se ela não produz FORÇA, você não a respeitará. Não interessa se é seu irmão. Se ele não produz FORÇA, você não o respeitará. Sim, você o amará, com certeza. Como um dono ama seu cão. Mas não o respeitará, ao invés de levantá-lo você vai esmagá-lo e humilhá-lo - inconscientemente - porque ele o faz sentir repulsa. 

Aprender a brigar foi uma lição importante ensinada pelo Ano em que o Mundo Deveria Acabar. O sentimento de revolta não precisa necessariamente se confundir com o de raiva. Agressividade produz força. Agressão gera violência. São coisas distintas. A força que se produz vinda da própria agressividade, daquela revolta contra a apatia de tudo o que é e que insiste em continuar como está, é a mola propulsora para que o pacifista veja-se a si mesmo com o respeito que lhe é devido.  Choque de opiniões não significa amor em jogo. Todo embate é válido, desde que sejam respeitados os princípios fundamentais: verdade, justiça, lealdade, fidelidade e respeito. E se vamos defender a paz, que a assumamos de cabeça erguida e punho em riste...

... porque em 2013 estou pronto para a Guerra! 


Abraços e espero que nos vejamos mais no Ano que vem!
Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE!"


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Genesis 2, 18 - Ou mais uma crônica de fim de ano

Muitas vezes, entre um cochilo e outro, uma crônica brota na minha cabeça como se tivesse sido enviada pelos Anjos (sabe-se lá de se do Céu ou do Inferno) via Sedex. Talvez seja isso o que os religiosos chamam de inspiração divina, aquela assinatura mágica que diz quando um texto pode ser considerado santo e quando não pode. A julgar pelo que é considerado livro sagrado, dou graças a Deus por meus textos continuarem sendo tratados como apócrifos, pois se levar em conta o meu modus operandi atual, não é meu modelo de vida que irá mostrar ao rebanho perdido o Reino dos Céus.
Não é que eu me julgue amoral em qualquer sentido do termo. Pelo contrário, sempre fui a favor do mais fraco, sempre preferi dar voz às minorias ao invés de repetir o que já dizem as culturas dominantes. Inteligência existe pra isso. As classes dominantes (nossa, isso soa tão marxista...) dizem muitas coisas estúpidas a fim de manter sua posição de dominantes, mas as classes desfavorecidas também o fazem. As classes pensantes devem procurar dizer o que ainda não foi dito por ninguém, ou pelo menos, dizer aquilo que vem de si mesmo, sem reproduzir a fala de outro.
Contudo, retomando meu primeiro parágrafo, esta crônica não veio como um presente, ela foi tortuosamente trabalhada, assim como aquela que falava da minha amiga Ri... Mas fim de ano merece reflexões, e volta e meia eu me lembro do que escrevia há um ano sobre o Natal e o Ano Novo, e sinto-me arrepiado por ver que tinha guardado dentro de mim tanta mágoa contra um inimigo invisível, que logo se mostrou ser... Eu mesmo!! Um Escritor que se auto-intitulava Maldito não podia esperar ter muita sorte na vida, e após uma sequência memorável de desventuras, chegou ao final do ano, engraçado... mais ou menos como eu chego agora, ou quem sabe dessa vez eu esteja ainda pior, exceto por um detalhe...
Dez quilos mais gordo, tendo entrado na casa dos trinta, ganhando menos, quebrado financeiramente e tão sozinho como no ano passado, 2011 foi um dos anos mais difíceis que já vivi em toda a minha vida. Mas uma vez que eu abri mão de tudo o que eu julgava que me fazia infeliz (esposa, emprego, casa) eu descobri que a felicidade não estava de fato nas coisas, nem na ausência delas. E o maior momento da minha vida foi descobrir que não existe nada de errado em ser fraco, não há vergonha em sofrer. A melhor coisa em ser sozinho, em viver sozinho, é que não é necessário fingir nada pra ninguém. Se quero rir, eu rio, se quero chorar, eu choro. Pelos motivos mais inúteis que se possa existir. Porque meu sentimento é verdadeiro. Dias atrás me peguei numa discussão com uma colega de trabalho, pois estava praguejando contra a chuva que caía há dias. Eu tenho uma implicância pessoal contra chuva, ela não me agrada em momento algum, mesmo quando vem só quando estou me preparando para me deitar. Então, enquanto reclamava, minha amiga evangélica me disse que não devia dizer aquilo, pois a chuva vinha de Deus. Eu retruquei: Eu digo que não gosto, porque NÃO gosto. Posso até dizer pra você que gosto, mas Deus sabe que eu detesto chuva, então pra quê vou dizer em voz alta que gosto e aceito algo que não é o que estou sentindo?
Eu poderia ter dito muito mais, mas aí eu provocaria uma discussão desnecessária, perderia um tempo precioso, e não chegaria a lugar nenhum: vulcões em erupção também vêm de Deus. Podemos reclamar deles? E dos relâmpagos? E dos terremotos? E do veneno das cobras? Detesto quando me dizem que devo gostar de tudo o que é porcaria que acaba com a vida da gente porque é natural, “vem de Deus”, aff... façam –me o favor, sejam honestos consigo mesmos, e admitam que também tem aversão à certas “coisas de Deus”.
Por muito tempo eu imaginava que pra ter o direito de sofrer, eu precisava entrar numa fila e esperar minha vez. A cada situação nova que se abatia sobre mim, era inundado com mensagens de que eu deveria era estar feliz por ter braços e pernas e olhos. Eu agradeço por ter braços e pernas e olhos, mas eu sofro de vez em quando. Sofro quando não consigo pagar minhas contas em dia. Sofro quando magôo uma pessoa que gosto muito. Sofro quando tiro notas baixas na faculdade, e sou reprovado. E nem meus braços e pernas conseguem me tornar mais felizes nesses momentos. É egoísmo da minha parte querer extravasar minhas frustrações em momentos como estes?
Deus não rejeita sofrimento. Aprendi isso, e acho que devemos repetir todas as vezes em que achamos que nossos motivos não são suficientes pra nos fazer sofrer. Se estamos sofrendo, estamos sofrendo. Sofro porque minha namorada me deu um fora, e a solidão que eu sentia antes dela se tornou insuportavelmente maior. Sofro porque meu carro me trouxe muitos problemas, exigiu grandes investimentos para que estivesse em condições de me transportar e agora não disponho de recursos para usufruir desse benefício, sofro porque desapontei uma pessoa muito especial que conheci esse ano, e não consegui me dirigir a ela pra dizer o quanto eu sinto, o quanto ela me faz falta...
Mas nada disso me faz chegar ao fim de 2011 cheio de ódio no coração. O Natal na Casa do Saci foi de uma simplicidade ímpar, conseguimos mais uma vez iluminar os sonhos da minha filha de seis anos, e pudemos dar a ela o maior dos presentes, a oportunidade de ter papai e mamãe juntos na casa da vovó, como uma família... como a família que somos. Não há nada que pague sua alegria, seu sorriso que ainda conserva o brilho inocente, que tem se esvaído com o passar dos anos, mas que nesse 25 de dezembro voltou a brilhar com toda a intensidade.
Continuo precisando de mensagens de paz durante todos os dias do ano, mas é verdade que tenho uma fé enorme nesse ano de 2012, pois consegui cumprir em 2011 todas as metas que me propus, ainda que o preço tenha sido alto. Na pior das hipóteses, em pouco menos de 365 dias, deixei para trás um escritor maldito, que odiava o Natal, o Ano Novo e tudo o que as festas representam, para chegar nesse fim de ano sorrindo, não pelo que passou, mas por aquilo que tenho certeza que vem por aí. Com lágrimas nos olhos, é verdade, mas elas são o preço de quem optou por não desistir dos sonhos que brotaram no seu coração.
Feliz Ano Novo Meus Queridos.
Reencontraremo-nos em 2012, no meu próximo post.
Gustavo Jonathan Costa
“Porque a vida vale a pena HOJE!”

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DEUS CACAU

Se eu fosse fundar uma religião que definisse a nova ordem mundial, fundaria uma que aceitasse todos os seres humanos , independente de raça, costumes, origens ou time de futebol. Seria uma seita global, onde todos seriam aceitos, teriam suas vozes ouvidas e a todos seria garantido o acesso ao Paraíso. Haveria apenas uma exceção. Em meus templos, e da minha vida social, iria excluir os compulsivos comedores de chocolate, e a eles iria legar somente choro e ranger de dentes.

É cientificamente comprovado que o chocolate atua na liberação dos hormônios ocitocina e serotonina, responsáveis pelas sensações de prazer e bem estar. Estes hormônios também são liberados após o ato sexual. Algumas pessoas, principalmente mulheres, tem com o chocolate uma relação quase passional. As sensações provocadas pela ingestão de um Ferrero Roche podem ser descritas quase como um orgasmo. Um marido que, ao chegar em casa, pega sua mulher atacando uma barra de chocolates Garoto pode acusá-la de pedofilia e traição. Portanto, pela incontrolabilidade da compulsão de comer chocolates, em meu mundo virtualmente perfeito, os chocólatras seriam banidos.

Imagino muitos leitores se indagando nesse momento: “mas qual é o pecado que existe em comer chocolate?” De fato, o questionamento é válido. Ser chocólatra não é o que define o caráter e as virtudes de uma pessoa. Você acorda todos os dias pela manhã, trata bem seus familiares, trabalha, paga seus impostos, é generoso com os amigos e vizinhos, evita fofocas, faz exercícios físicos, estuda, recicla seu lixo, faz tudo direitinho, ou quase tudo, mas o que faz com uma barra de Talento joga por terra todas as suas virtudes, e você é classificado como pária social por causa do relativismo injusto de alguns.

Se ao invés de chocólatras eu tivesse dito que deixaria de fora os homossexuais, acredito que muitos teriam concordado logo de cara que a eles eu deveria de fato negar o Reino dos Céus. Acontece que, assim como os chocólatras, os homossexuais acordam pela manhã, tratam bem seus familiares, trabalham, pagam impostos, são generosos com os amigos e vizinhos, evitam fofocas e etc. etc. etc... Ou não. Alguns tratam mal seus amigos e familiares, causam intrigas, são invejosos, maliciosos, promíscuos... Assim como muitos heterossexuais. Querer classificá-los, rotulá-los como uma classe à parte, definindo seus modos e comportamentos, é de um reducionismo burro que só pode se submeter pessoas extremamente pouco esclarecidas que acham que uma pessoa pode ser definida pelo que faz sexualmente. E na ânsia de ficar exultando as maravilhas das virtudes cristãs, muitas pessoas esquecem de que a mesma Bíblia que combatia o homossexualismo era a favor de guerras em nome de Deus, defendia a escravidão e ordenava que os infiéis arrancassem fora seus olhos se eles o fizessem pecar.

Tenho uma relação muito pessoal com Deus, mas tenho muita pena de quem acha que umas poucas mil páginas escritas a mais de dois mil anos atrás podem conter todas as verdades do Universo, e por conhecerem de cor alguns versículos soltos e descontextualizados, saem pelas ruas e pelas redes sociais emulando o comportamento dos fariseus que o Deus deles tanto combateu. No meio de suas rodinhas, batem no peito e se dizem os maiores pecadores, mas em sociedade não conseguem se misturar às pessoas que não compartilham com eles das mesmas “verdades”. Parafraseando André Gide, eu realmente creio naquelas pessoas que buscam a verdade, mas duvido dos que a encontraram. Pois se esse a quem chamam de Deus é tudo mesmo que dizem, Ele nos deu inteligência suficiente pra questionar, duvidar, colocar o dedo no nariz Dele e dizer: PROVA!! Isso não diminui sua divindade, se foi Ele quem nos fez, está preparado pra isso. Ele não vai ficar sofrendo e chorando como gostamos de imaginar que a cada queda nossa ele sofre junto conosco. Se ele controla nosso destino, não precisa sofrer, a não ser que seja masoquista. Se tudo o que acontece está nas mãos Dele, por quê então diabos um cara passa onze meses estudando para um vestibular para ser aprovado e morrer atropelado por uma manada de búfalos na semana seguinte, sem ao menos ingressar na faculdade?

São estes questionamentos que sempre me pego fazendo, sem o menor sentimento de culpa ou temor por castigos divinos. Infelizmente por isso, ou talvez graças a isso, não consigo me encontrar em nenhum grupo religioso. Em compensação, durante toda a minha vida, fiz amigos entre os homossexuais, prostitutas e intelectuais, sem que pra isso eu tenha que ter me tornado homossexual, me prostituído ou ficado mais inteligente... Isso simplesmente porque eu gosto de pessoas boas. Cada um traz dentro de si o que acha que são pessoas boas, e elas estão por toda a parte, assim como as pessoas más, elas podem ser encontradas tanto nas igrejas quanto nas zonas de prostituição, tanto entre os atleticanos quanto entre os cruzeirenses, ou entre os evangélicos e os espíritas.

Quando levanto as mãos pro alto e agradeço a Deus pela sorte que tenho: profissão, filha, emprego, família, amigos, faculdade eu penso: então qual deveria ser a atitude daqueles que não tem nada disso? Ódio? Revolta? Afinal de contas, não fiz necessariamente nada para Deus para merecer o que tenho... fiz por mim e para mim mesmo. O que me torna especial? O que torna outras pessoas menos especiais? Ter pernas, olhos e saúde enquanto outros não tem... é vontade de Deus? Por que as coisas boas que acontecem no mundo são obras de Deus, e as desgraças são culpa nossa?

Descobrir Deus é muito bom, mas não se faz isso sem passar pelas coisas que Ele criou. Limitar sua inteligência para deixar tudo nas mãos Dele é devolver uma responsabilidade que Ele já deixou pra você. Se vira. Ele não quer que deixemos de lado nossa inteligência, nossa criatividade, nossas dúvidas, em troca de uma fé cega, uma fé em nada... Deus não faz isso. Quem está dizendo isso são homens ignorantes, ou por ingenuidade ou por malícia.

E se ainda tiver dúvidas, pode comer seu chocolate à vontade. A não ser que você seja alérgico a tal iguaria, nada de mal pode lhe acontecer, além de uns quilinhos a mais... e muito prazer, é claro! Se não acredita, questione, e prove o contrário.

Até meu próximo post.

Gustavo Jonathan Costa

“Porque a vida vale a pena HOJE!”