quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

MÃE


Daqui a exatamente 3 meses, mais precisamente no dia 12 de maio, a maioria de nós não mais se lembrará que há duas semanas uma boate pegou fogo em Santa Maria, levando a óbito 238 jovens que ali estavam. Será o Dia das Mães,  e para um grupo especial de pessoas a dor dessa perda jamais será abrandada... São aquelas mulheres especiais que um dia receberam a dádiva de receber e alimentar dentro de si uma dessas duzentas e tantas vítimas... As mães desses jovens  sentirão eternamente o peso da ferida causada pela inversão natural de ter que enterrar seus próprios filhos.

Não existe nada que nos prepare para sepultar nossos pais. Mas aos pais, sequer passa pela cabeça viver mais que aqueles que de quem cujos lábios saem palavras tão pequenas e tão profundas. Não é só uma dor incurável, é uma completa sensação de fracasso – como se você tivesse falhado justamente com a pessoa que  mais ama, aquela que jurou proteger de todos os males, e que o mundo covardemente tirou de seus braços.

Quando lamento minha falta de sorte, lembro-me que devo ser grato por ter uma filha linda e saudável, e desejo que ela seja feliz acima de qualquer outra coisa. Mas não é o amor que sinto por ela que me intriga, existe  outra pessoa que é capaz de me surpreender, no auge dos meus 31 anos...

Mãe...

A MINHA mãe, essa senhorinha gorducha de olhos cansados, dona de uma força de vontade capaz de transformar carvão em diamante. Tem uma personalidade forte, teimosa, valente, corajosa e incansável e quis o destino que de dentro do seu ventre materno fossem gerados três filhos de personalidade forte e teimosa e valente e corajosa e incansável, além de egocêntrica e ciumenta.  Com autoridade militar, ela nos ensinou a partilharmos nossos bens, nos ensinou a sermos humildes, a não fazermos distinção de pessoas, a valorizarmos o esforço pessoal e o talento individual, a não desistir nunca, nunca, nunca, nunca e NUNCA... Porque quem conhece a minha mãe sabe que ela NUNCA desiste...

Ela tem um AMOR  (maiúsculo) que eu sinto sem conseguir compreender... Não é como o amor de pai, sem menosprezar o amor do meu pai, que é enorme. Mas falo porque eu também sou pai.  Nós, homens, aceitamos o fato de ser pai – é uma convenção social. Nós não nos sentimos pais, nós aprendemos a ser pais vendo outros pais, e a cada manifestação de carinho dos nossos filhos vamos nos afeiçoando a eles e aprendemos a amá-los, e amamos tanto que depois não sabemos como não gostar deles... Mas mãe é diferente... ela já foi um só conosco, ela padece cada lágrima nossa, ela consegue sentir nosso sofrimento como se fosse dela, como se fosse maior nela do que em nós.

Um pai (ainda vou escrever uma crônica sobre Pais) faz coisas pelos filhos como um gesto de doação – e quer um reconhecimento, ainda que bem tardio. A mãe faz coisas pelos filhos como se fizesse para si mesma, ou melhor ainda, e espera que esses reconheçam na própria felicidade o dedo amoroso que os acompanharam durante toda a vida...

Mas a vontade de conquistar o mundo para os filhos, infelizmente, encontra obstáculos ao longo do tempo... Se a sua mãe já passou dos cinquenta anos, sabe bem do que estou falando. Existe um momento em que o corpo físico já não suporta mais os sacrifícios que foram feitos até que os filhos se transformem em homens feitos. Deveria ser este o momento em que os pais decidem descansar, gozar a vida, lembrar que são homens e mulheres cheios de sonhos adiados por muitos anos...

Deveria...

Quem conhece minha família sabe que meus pais conseguiram, depois de muitos sacrifícios, construir em um terreno afastado da grande selva urbana, a casa dos sonhos. Pelo menos a casa dos sonhos deles. E vivem maravilhosamente num pedaço de paraíso que se tornou refúgio para mim, meus irmãos, parentes e amigos que visitam a Casa do Saci constantemente e não se cansam de cantar suas maravilhas aos quatro cantos do mundo. Pois a dona desse paraíso, em uma conversa daquelas sérias que só ela sabe ter, me disse que para te ver feliz meu filho, vendo tudo, casa, carro e apartamento, como até lama pra te colocar num bom caminho.

E não é pra chorar e se emocionar com uma demonstração de amor desse tamanho? De alguém que já deveria estar vendo os filhos tranquilos e felizes? Minha mãe, que já não tem os ossos fortes como tinha há trinta anos, que passou recentemente por uma cirurgia de esôfago, enxerga mal e sente sempre fortes dores na coluna, toparia passar por tudo de novo e mais um pouco, só pra me ver feliz... Mamãe é tão bonitinha que no mesmo dia, antes de sair para dar seu plantão noturno no Hospital das Clínicas, me pediu quase em súplica: meu filho, vou ter que abusar de você, mas juro que é só um pouquinho... você pode regar minhas rosas hoje pra mim?

E COMO EU NÃO VOU REGAR AS ROSAS PRA QUEM ACABOU DE ME DIZER QUE VAI ABRIR MÃO DE TUDO O QUE TEM POR MIM?

Minha mãe me pede pequenos favores diários porque sabe que eu faço de coração. Porque eu conheço sua rotina, sei o que ela pensa e sente. Talvez você, filho ou filha que esteja aí sentado lendo essa crônica, esteja se sensibilizando e pensando em sua mãe agora. Então você pensa que seria mágico se você fosse até ela nesse momento, desse um beijo e dissesse," mãe eu te amo! Obrigado por tudo o que a senhora fez e faz por mim". Sabe o que eu digo pra você? Continuar dizendo pra sua mãe que você a ama, não vai adiantar NADA se você não começar a ter vergonha na cara e arrumar sua cama, se você não vai até ela e oferece ajuda pra passar um pano nesse chão que você pisa todos os dias, ou pra lavar o vaso sanitário em que você defeca e ela é obrigada a lavar. Dizer palavras doces faz muito bem, mas aliviar as dores do corpo de sua mãe, picando aquela cenoura pro almoço, ou lavando sua roupa de vez em quando, opera verdadeiros milagres.

Sabe aquela casca de banana que você jogou no cesto de lixo e você viu cair no chão? É pra sua mãe pegar pra você, não é? Antes ou depois de você dizer que a ama? Grande gesto de amor...

Sabe aquela comida que ela fez pra você e você não comeu, e ficou velha? Que tal usá-la pra fazer a janta só hoje, ou um mexido, ao invés de tirar sua mãe da cama, ou do seu descanso, ou de sua novela, só pra ir pro fogão fazer comida nova pro marmanjo? Ou sua ideia era esperar a janta ficar pronta (enquanto você descansa) pra depois dizer pra ela o quanto a ama?

A maioria dos filhos tem a falsa ideia de que pra mãe é sempre um prazer fazer comida e lavar roupa, quando a verdade é que o grande prazer das mães é ver os filhos felizes. Se tiver que ser lavando roupa, que seja lavando roupa, se tiver que ser fazendo comida, que seja... E muitas vezes, na correria de ganhar a vida, ganhar o dia, trabalhar e estudar, acabamos mesmo precisando de um suporte – e achamos que nossas mães são sempre o caminho mais rápido e seguro. E eu seria um hipócrita se dissesse que não conto muito com a ajuda da minha querida, às vezes. Mas não acho justo, nem bonito, que a troco de não fazer nada, a pobre coitada lave, cozinhe, passe e arrume casa para mim.

Afinal de contas, seus ossos já não são mais aqueles, sua mente já não é mais aquela, sua força também não... apesar de eu ainda sentir tremores quando ela ameaça me dar uns safanões, sei que a força do seu braço seria incapaz de me provocar uma dor real. Os anos vão passando, e os papéis se invertem. As crianças se tornam homens (e mulheres). Pais e mães se tornam avós, e os cuidados que eles nos dedicavam agora vão precisar – de nós, seus filhos.

Quer maior prova de amor do que amparar seu pai e sua mãe com o braço, quando suas pernas já não são fortes o bastante para levá-los aonde quer que precisem ir? Quer maior prova de amor do que colocá-los pra dormir, levá-los ao médico? Cuidar de suas funções mais básicas quando eles já não conseguem se controlar sozinhos? Limpá-los, dar-lhes banho, se necessário?

Você não assume essa missão no momento de necessidade, é preciso que vá  treinando, se envolvendo cada vez mais com a intimidade e as dores dos seus pais para que – quando menos se esperar – eles já tenham se entregado inteiramente aos seus cuidados, confiantes e eternamente gratos.

E sabiamente você terá a consciência que tudo, absolutamente TUDO o que fizer não será suficiente para lhes retribuir o que fizeram por você ao longo da vida...

E que o último sono das pessoas que mais lhe amaram na vida venha sem o pegar desprevenido, sem que você tivesse dito todas as vezes o quanto é grato... o quanto os ama... o quanto os amou...

E o final dessa crônica não podia ser mais clichê...

Mãe – Eu te amo!

quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

O ENEAGRAMA OU SÓ MAIS UMA CRÔNICA DE FIM DE ANO

O Dia Em Que a Mão de Deus Tocou é o nome de um blog criado por mim há uns três ou quatro anos pra divulgar o projeto de um livro com esse título que comecei a escrever... O blog ainda está vivo, se você digitar isso aí no Google provavelmente vai ser direcionado diretamente pra ele... e vai perceber que o livro nada tem de religioso, embora ligeiramente metafísico. É uma história de adolescentes com poderes, baseado em alguns dos princípios do Eneagrama, um símbolo antigo que hoje é usado como ferramenta para avaliação de pessoas e é muito famoso entre as empresas de recrutamento e recursos humanos.

Fui submetido à um teste de personalidade através dos fundamentos do Eneagrama há um ano, e enquadrado em dois subtipos distintos: Intelectual e Pacificador. Para quem nunca ouviu falar, o Eneagrama descreve nove subtipos de personalidade presentes em todos os seres humanos, alguns em maior ou menor evidência, e a busca da felicidade consiste justamente no equilíbrio entre esses nove tipos (Caso queira saber mais, visite: http://www.ieneagrama.com.br/, entre outros). 

O diagnóstico não me surpreendeu. De fato, na época em que o teste foi aplicado, já tinha assumido pra mim mesmo uma postura mais pacifista diante das tempestades que me abatem diariamente, e aos poucos fui adquirindo aqui mesmo neste blog um tom mais leve e mais humanitário - que foi inclusive marcado pela mudança de nome do blog - de Crônicas de Um Escritor Maldito para o atual Crônicas de Um Escritor Nostálgico - que soa menos agressivo e amargo. A serenidade é um dom que precisa ser cultivado, e é balsâmica não só para a alma do sereno mas para aqueles que convivem com ele. 

Todos os dias quero acordar e perceber que as pessoas que me rodeiam, que compartilham comigo compulsoriamente horas preciosas do seu dia, se alegram de verdade por estar em minha companhia, a ponto de minha simples lembrança se tornar motivo de sorriso e paz. Nem sempre é fácil Mas a filosofia de que "a opinião alheia a meu respeito não importa" não é um preceito que costumo adotar. Gosto de me adaptar a vários tipos de gostos, o que não quer dizer que eu adote vários tipos de rostos. Gosto de me adequar, desde que o que se espera de mim seja algo que está em mim, dentro da esfera dos princípios fundamentais do caráter que herdei dos meus pais e que vou carregar pra toda a vida... Noções abstratas de verdade, justiça, lealdade, fidelidade, respeito, têm um peso enorme em minha consciência, e sempre que cedi às tentações de quebrar qualquer um destes valores o preço pago foi alto demais... 

Bem, um dos vícios descritos para o subtipo Pacificador é justamente a adoção de uma certa aversão por conflitos de opinião e interesse. E eles são inevitáveis. Em uma de suas antigas canções, Humberto Gessinger, da extinta banda Engenheiros do Hawaí, dizia muito sabiamente: "Se queres paz, te prepara para a guerra. Se não queres nada, descanse em paz". Desgraçadamente, numa sociedade ocidental cristã, não existe espaço para que as máximas do maior fundador de religiões de todos os tempos, aquele que se disse Deus Todo-Poderoso feito homem, capaz inclusive de ser um marco divisor de nosso calendário, sejam postas em prática (vou transcrever pra não dizerem que inventei): "Ao que te ferir numa face, oferece-lhe também a outra; e ao que te houver tirado a capa, nem a túnica recuses; (Lucas 6, 29). Infelizmente, os seguidores desse senhor estão cansados demais, revoltados demais, ou simplesmente preguiçosos demais, para colocar em prática as palavras de quem chamam de Mestre. Acabam não se tornando seguidores, apenas fãs (ouvi essa última frase de um noticiário americano mas agora não me lembro do entrevistado. Sorry!). Não raro, tecem impropérios contra toda a sorte de gente no mundo, desde a fofoqueira do setor tal, a faxineira, a vizinha da rua de cima, o chato do ônibus... Todos uns ignorantes, mal-amados, sem educação que deviam levar muita surra da vida ainda pra aprender a respeitar os mais velhos, os mais novos, os mais pobres, os mais ricos... (no fundo, os “mais-eu”)  Quando se fala de noticiários então, sempre escuto opiniões favoráveis a penas cruéis, severas e desumanas, desde trabalhos forçados a extração dos testículos aos autores desse ou daquele crime.  Demagogia à parte, também sou a favor de penas mais duras para ladrões e estupradores, mas eu posso dizer porque afinal de contas, não sou seguidor do mestre... 

Enfim, o pacifismo tem seu preço. "Se queres paz, te prepara para a guerra". Com o tempo, aprendemos na prática umas verdades sobre o ser humano que sempre soubemos, mas que de certa forma ignoramos. Sabe aqueles jargões e ditados prontos: "Quem não chora, não mama." Ou "Se você não decide, outro decide por você"? Pois foram baseados em fatos reais. O pacifista, ou o pseudo-pacifista, o pacífico, muitas vezes se confunde (acaba confundindo a si mesmo) com o apático, o sem-cor, sem personalidade, sem decisão, sem fibra. Acaba negando-se a si mesmo para evitar conflitos. Esse é o limite perigoso entre aquele que tenta agradar e aquele que não quer se comprometer. E ao atravessar essa linha tênue, o pacifista acaba provocando justamente o oposto do que gostaria, e o que é pior, com a consciência tranquila. "Se não queres nada, descanse em paz". 

Pode não parecer, mas o pacifista sofre sim. Muitas vezes, as pessoas confundem, acreditam que, por ser uma pessoa de hábitos moderados, não tem sentimentos. O pacifista acha que vai conquistar o melhor das pessoas simplesmente sendo bom e generoso, mas não é o que ocorre. Ele se decepciona, e muitas vezes a decepção vem de pessoas muito próximas. Sentindo que o pacifista é fraco, as pessoas o usam para exercitar sua força, para extravasar sua agressividade, pois já comprovaram que, tal qual um cão obediente, ele irá se limitar a abaixar a cabeça, resignado, e voltará abanando o rabo, sem mágoa, implorando por migalhas de consideração. 

As pessoas aprenderam a respeitar a força. Dinheiro, inteligência, vitalidade, eloquência, tudo isso produz força. Você acha que respeita o amor? Mentira! Você respeita a força. Acha que respeita a sensibilidade? Outra mentira! A ÚNICA coisa que respeitamos é a FORÇA. Pessoas sem amor próprio, sem opinião, deprimidas, confusas, lentas, representam tudo aquilo que NÃO respeitamos. Não interessa se é sua mãe. Se ela não produz FORÇA, você não a respeitará. Não interessa se é seu irmão. Se ele não produz FORÇA, você não o respeitará. Sim, você o amará, com certeza. Como um dono ama seu cão. Mas não o respeitará, ao invés de levantá-lo você vai esmagá-lo e humilhá-lo - inconscientemente - porque ele o faz sentir repulsa. 

Aprender a brigar foi uma lição importante ensinada pelo Ano em que o Mundo Deveria Acabar. O sentimento de revolta não precisa necessariamente se confundir com o de raiva. Agressividade produz força. Agressão gera violência. São coisas distintas. A força que se produz vinda da própria agressividade, daquela revolta contra a apatia de tudo o que é e que insiste em continuar como está, é a mola propulsora para que o pacifista veja-se a si mesmo com o respeito que lhe é devido.  Choque de opiniões não significa amor em jogo. Todo embate é válido, desde que sejam respeitados os princípios fundamentais: verdade, justiça, lealdade, fidelidade e respeito. E se vamos defender a paz, que a assumamos de cabeça erguida e punho em riste...

... porque em 2013 estou pronto para a Guerra! 


Abraços e espero que nos vejamos mais no Ano que vem!
Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE!"


segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Genesis 2, 18 - Ou mais uma crônica de fim de ano

Muitas vezes, entre um cochilo e outro, uma crônica brota na minha cabeça como se tivesse sido enviada pelos Anjos (sabe-se lá de se do Céu ou do Inferno) via Sedex. Talvez seja isso o que os religiosos chamam de inspiração divina, aquela assinatura mágica que diz quando um texto pode ser considerado santo e quando não pode. A julgar pelo que é considerado livro sagrado, dou graças a Deus por meus textos continuarem sendo tratados como apócrifos, pois se levar em conta o meu modus operandi atual, não é meu modelo de vida que irá mostrar ao rebanho perdido o Reino dos Céus.
Não é que eu me julgue amoral em qualquer sentido do termo. Pelo contrário, sempre fui a favor do mais fraco, sempre preferi dar voz às minorias ao invés de repetir o que já dizem as culturas dominantes. Inteligência existe pra isso. As classes dominantes (nossa, isso soa tão marxista...) dizem muitas coisas estúpidas a fim de manter sua posição de dominantes, mas as classes desfavorecidas também o fazem. As classes pensantes devem procurar dizer o que ainda não foi dito por ninguém, ou pelo menos, dizer aquilo que vem de si mesmo, sem reproduzir a fala de outro.
Contudo, retomando meu primeiro parágrafo, esta crônica não veio como um presente, ela foi tortuosamente trabalhada, assim como aquela que falava da minha amiga Ri... Mas fim de ano merece reflexões, e volta e meia eu me lembro do que escrevia há um ano sobre o Natal e o Ano Novo, e sinto-me arrepiado por ver que tinha guardado dentro de mim tanta mágoa contra um inimigo invisível, que logo se mostrou ser... Eu mesmo!! Um Escritor que se auto-intitulava Maldito não podia esperar ter muita sorte na vida, e após uma sequência memorável de desventuras, chegou ao final do ano, engraçado... mais ou menos como eu chego agora, ou quem sabe dessa vez eu esteja ainda pior, exceto por um detalhe...
Dez quilos mais gordo, tendo entrado na casa dos trinta, ganhando menos, quebrado financeiramente e tão sozinho como no ano passado, 2011 foi um dos anos mais difíceis que já vivi em toda a minha vida. Mas uma vez que eu abri mão de tudo o que eu julgava que me fazia infeliz (esposa, emprego, casa) eu descobri que a felicidade não estava de fato nas coisas, nem na ausência delas. E o maior momento da minha vida foi descobrir que não existe nada de errado em ser fraco, não há vergonha em sofrer. A melhor coisa em ser sozinho, em viver sozinho, é que não é necessário fingir nada pra ninguém. Se quero rir, eu rio, se quero chorar, eu choro. Pelos motivos mais inúteis que se possa existir. Porque meu sentimento é verdadeiro. Dias atrás me peguei numa discussão com uma colega de trabalho, pois estava praguejando contra a chuva que caía há dias. Eu tenho uma implicância pessoal contra chuva, ela não me agrada em momento algum, mesmo quando vem só quando estou me preparando para me deitar. Então, enquanto reclamava, minha amiga evangélica me disse que não devia dizer aquilo, pois a chuva vinha de Deus. Eu retruquei: Eu digo que não gosto, porque NÃO gosto. Posso até dizer pra você que gosto, mas Deus sabe que eu detesto chuva, então pra quê vou dizer em voz alta que gosto e aceito algo que não é o que estou sentindo?
Eu poderia ter dito muito mais, mas aí eu provocaria uma discussão desnecessária, perderia um tempo precioso, e não chegaria a lugar nenhum: vulcões em erupção também vêm de Deus. Podemos reclamar deles? E dos relâmpagos? E dos terremotos? E do veneno das cobras? Detesto quando me dizem que devo gostar de tudo o que é porcaria que acaba com a vida da gente porque é natural, “vem de Deus”, aff... façam –me o favor, sejam honestos consigo mesmos, e admitam que também tem aversão à certas “coisas de Deus”.
Por muito tempo eu imaginava que pra ter o direito de sofrer, eu precisava entrar numa fila e esperar minha vez. A cada situação nova que se abatia sobre mim, era inundado com mensagens de que eu deveria era estar feliz por ter braços e pernas e olhos. Eu agradeço por ter braços e pernas e olhos, mas eu sofro de vez em quando. Sofro quando não consigo pagar minhas contas em dia. Sofro quando magôo uma pessoa que gosto muito. Sofro quando tiro notas baixas na faculdade, e sou reprovado. E nem meus braços e pernas conseguem me tornar mais felizes nesses momentos. É egoísmo da minha parte querer extravasar minhas frustrações em momentos como estes?
Deus não rejeita sofrimento. Aprendi isso, e acho que devemos repetir todas as vezes em que achamos que nossos motivos não são suficientes pra nos fazer sofrer. Se estamos sofrendo, estamos sofrendo. Sofro porque minha namorada me deu um fora, e a solidão que eu sentia antes dela se tornou insuportavelmente maior. Sofro porque meu carro me trouxe muitos problemas, exigiu grandes investimentos para que estivesse em condições de me transportar e agora não disponho de recursos para usufruir desse benefício, sofro porque desapontei uma pessoa muito especial que conheci esse ano, e não consegui me dirigir a ela pra dizer o quanto eu sinto, o quanto ela me faz falta...
Mas nada disso me faz chegar ao fim de 2011 cheio de ódio no coração. O Natal na Casa do Saci foi de uma simplicidade ímpar, conseguimos mais uma vez iluminar os sonhos da minha filha de seis anos, e pudemos dar a ela o maior dos presentes, a oportunidade de ter papai e mamãe juntos na casa da vovó, como uma família... como a família que somos. Não há nada que pague sua alegria, seu sorriso que ainda conserva o brilho inocente, que tem se esvaído com o passar dos anos, mas que nesse 25 de dezembro voltou a brilhar com toda a intensidade.
Continuo precisando de mensagens de paz durante todos os dias do ano, mas é verdade que tenho uma fé enorme nesse ano de 2012, pois consegui cumprir em 2011 todas as metas que me propus, ainda que o preço tenha sido alto. Na pior das hipóteses, em pouco menos de 365 dias, deixei para trás um escritor maldito, que odiava o Natal, o Ano Novo e tudo o que as festas representam, para chegar nesse fim de ano sorrindo, não pelo que passou, mas por aquilo que tenho certeza que vem por aí. Com lágrimas nos olhos, é verdade, mas elas são o preço de quem optou por não desistir dos sonhos que brotaram no seu coração.
Feliz Ano Novo Meus Queridos.
Reencontraremo-nos em 2012, no meu próximo post.
Gustavo Jonathan Costa
“Porque a vida vale a pena HOJE!”

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

DEUS CACAU

Se eu fosse fundar uma religião que definisse a nova ordem mundial, fundaria uma que aceitasse todos os seres humanos , independente de raça, costumes, origens ou time de futebol. Seria uma seita global, onde todos seriam aceitos, teriam suas vozes ouvidas e a todos seria garantido o acesso ao Paraíso. Haveria apenas uma exceção. Em meus templos, e da minha vida social, iria excluir os compulsivos comedores de chocolate, e a eles iria legar somente choro e ranger de dentes.

É cientificamente comprovado que o chocolate atua na liberação dos hormônios ocitocina e serotonina, responsáveis pelas sensações de prazer e bem estar. Estes hormônios também são liberados após o ato sexual. Algumas pessoas, principalmente mulheres, tem com o chocolate uma relação quase passional. As sensações provocadas pela ingestão de um Ferrero Roche podem ser descritas quase como um orgasmo. Um marido que, ao chegar em casa, pega sua mulher atacando uma barra de chocolates Garoto pode acusá-la de pedofilia e traição. Portanto, pela incontrolabilidade da compulsão de comer chocolates, em meu mundo virtualmente perfeito, os chocólatras seriam banidos.

Imagino muitos leitores se indagando nesse momento: “mas qual é o pecado que existe em comer chocolate?” De fato, o questionamento é válido. Ser chocólatra não é o que define o caráter e as virtudes de uma pessoa. Você acorda todos os dias pela manhã, trata bem seus familiares, trabalha, paga seus impostos, é generoso com os amigos e vizinhos, evita fofocas, faz exercícios físicos, estuda, recicla seu lixo, faz tudo direitinho, ou quase tudo, mas o que faz com uma barra de Talento joga por terra todas as suas virtudes, e você é classificado como pária social por causa do relativismo injusto de alguns.

Se ao invés de chocólatras eu tivesse dito que deixaria de fora os homossexuais, acredito que muitos teriam concordado logo de cara que a eles eu deveria de fato negar o Reino dos Céus. Acontece que, assim como os chocólatras, os homossexuais acordam pela manhã, tratam bem seus familiares, trabalham, pagam impostos, são generosos com os amigos e vizinhos, evitam fofocas e etc. etc. etc... Ou não. Alguns tratam mal seus amigos e familiares, causam intrigas, são invejosos, maliciosos, promíscuos... Assim como muitos heterossexuais. Querer classificá-los, rotulá-los como uma classe à parte, definindo seus modos e comportamentos, é de um reducionismo burro que só pode se submeter pessoas extremamente pouco esclarecidas que acham que uma pessoa pode ser definida pelo que faz sexualmente. E na ânsia de ficar exultando as maravilhas das virtudes cristãs, muitas pessoas esquecem de que a mesma Bíblia que combatia o homossexualismo era a favor de guerras em nome de Deus, defendia a escravidão e ordenava que os infiéis arrancassem fora seus olhos se eles o fizessem pecar.

Tenho uma relação muito pessoal com Deus, mas tenho muita pena de quem acha que umas poucas mil páginas escritas a mais de dois mil anos atrás podem conter todas as verdades do Universo, e por conhecerem de cor alguns versículos soltos e descontextualizados, saem pelas ruas e pelas redes sociais emulando o comportamento dos fariseus que o Deus deles tanto combateu. No meio de suas rodinhas, batem no peito e se dizem os maiores pecadores, mas em sociedade não conseguem se misturar às pessoas que não compartilham com eles das mesmas “verdades”. Parafraseando André Gide, eu realmente creio naquelas pessoas que buscam a verdade, mas duvido dos que a encontraram. Pois se esse a quem chamam de Deus é tudo mesmo que dizem, Ele nos deu inteligência suficiente pra questionar, duvidar, colocar o dedo no nariz Dele e dizer: PROVA!! Isso não diminui sua divindade, se foi Ele quem nos fez, está preparado pra isso. Ele não vai ficar sofrendo e chorando como gostamos de imaginar que a cada queda nossa ele sofre junto conosco. Se ele controla nosso destino, não precisa sofrer, a não ser que seja masoquista. Se tudo o que acontece está nas mãos Dele, por quê então diabos um cara passa onze meses estudando para um vestibular para ser aprovado e morrer atropelado por uma manada de búfalos na semana seguinte, sem ao menos ingressar na faculdade?

São estes questionamentos que sempre me pego fazendo, sem o menor sentimento de culpa ou temor por castigos divinos. Infelizmente por isso, ou talvez graças a isso, não consigo me encontrar em nenhum grupo religioso. Em compensação, durante toda a minha vida, fiz amigos entre os homossexuais, prostitutas e intelectuais, sem que pra isso eu tenha que ter me tornado homossexual, me prostituído ou ficado mais inteligente... Isso simplesmente porque eu gosto de pessoas boas. Cada um traz dentro de si o que acha que são pessoas boas, e elas estão por toda a parte, assim como as pessoas más, elas podem ser encontradas tanto nas igrejas quanto nas zonas de prostituição, tanto entre os atleticanos quanto entre os cruzeirenses, ou entre os evangélicos e os espíritas.

Quando levanto as mãos pro alto e agradeço a Deus pela sorte que tenho: profissão, filha, emprego, família, amigos, faculdade eu penso: então qual deveria ser a atitude daqueles que não tem nada disso? Ódio? Revolta? Afinal de contas, não fiz necessariamente nada para Deus para merecer o que tenho... fiz por mim e para mim mesmo. O que me torna especial? O que torna outras pessoas menos especiais? Ter pernas, olhos e saúde enquanto outros não tem... é vontade de Deus? Por que as coisas boas que acontecem no mundo são obras de Deus, e as desgraças são culpa nossa?

Descobrir Deus é muito bom, mas não se faz isso sem passar pelas coisas que Ele criou. Limitar sua inteligência para deixar tudo nas mãos Dele é devolver uma responsabilidade que Ele já deixou pra você. Se vira. Ele não quer que deixemos de lado nossa inteligência, nossa criatividade, nossas dúvidas, em troca de uma fé cega, uma fé em nada... Deus não faz isso. Quem está dizendo isso são homens ignorantes, ou por ingenuidade ou por malícia.

E se ainda tiver dúvidas, pode comer seu chocolate à vontade. A não ser que você seja alérgico a tal iguaria, nada de mal pode lhe acontecer, além de uns quilinhos a mais... e muito prazer, é claro! Se não acredita, questione, e prove o contrário.

Até meu próximo post.

Gustavo Jonathan Costa

“Porque a vida vale a pena HOJE!”

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Never give up!!!

Na correria do dia-a-dia eu fico imaginando qual será a última vez em que me atrevo a postar mais uma crônica nesse meu blog. Se as vertentes do Naturalismo estiverem corretas, é fato que o homem é determinado pelo meio onde vive, e no mundo das ciências exatas, é mais fácil calcular integrais do que voltar pra mim mesmo e traduzir em palavras o que se encontra na alma humana. Mas algumas características são essenciais, transcendem qualquer determinismo, e ainda que sejam raras minhas aventuras neste blog, elas podem tender a zero sem nunca serem iguais a zero.

O tempo passa e a vida deixa marcas nas pessoas. Sempre achei que isso fosse uma metáfora, mas é um fato. E não falo somente de rugas, estrias e pés de galinha, ou barrigas de chope. Minha filha tem só seis anos, e seus olhos já são muito diferentes dos que ela tinha aos dois e três. Ela já tem maturidade pra saber que os pais dela falham, e falharam com ela quando não souberam manter viva a união de sua família. Ela sabe que pode ser castigada quando diz a verdade, mesmo quando insistimos que ela deve sempre dizer o que pensa e sente. Sabe que não adianta chorar e implorar pra não ser “abandonada” numa escola cheia de pessoas estranhas, porque ela vai ser deixada lá de qualquer jeito... E cada decepção, cada estrago, diminui um pouco aquele brilhinho que ela carregava ao nascer, aquela inocência...

Quando vejo minhas fotos de infância, reconheço quase tudo em mim: as mãos, o nariz, o cabelo... exatamente como são agora (com mais pêlos hoje, diga-se de passagem). Mas os olhos, aah... mudaram muito. É praticamente impossível emular aquelas expressões, elas vinham de uma alma que ainda não sabia o que era se decepcionar com as falhas dos pais, dos amigos, dos colegas de trabalho e principalmente com as minhas próprias...

Eram olhos de quem não sabia ou não precisava lidar com perdas...

Perder é uma das lições mais duras e mais valiosas da vida. A experiência da morte, de perder pessoas queridas, de perder um amor, de perder um ano escolar, nos massacra, oprime, e nada há que nos faça recuperar o que perdemos. Se não sobrevivemos, nos perdemos também, mas o processo de sobrevivência exige algo de nós, e o preço é parte do brilho que carregávamos quando nascemos.

Felizmente, perder o brilho não nos faz mais fracos, pelo contrário. Cada vez que sobrevivemos, nos tornamos mais fortes. E serenos. Sobreviver é acreditar na vida. Porque se lutamos pra sobreviver é porque acreditamos que existe algo de bom pelo que vale a pena continuar tentando. E ainda que as marcas da decepção se salientem em nossos rostos, nosso sorriso se torna cada vez mais sincero, mais valioso, mais saboroso.

Sempre desdenhei a importância que a televisão e os meios de comunicação dão à beleza estética, mas não posso deixar de comentar o quanto achei bonito ver o sorriso de Reinaldo Gianechinni após ter raspado os cabelos para enfrentar a luta contra o câncer. Ou mesmo o sorriso do ex-Presidente Lula. Porque só Deus (e quem assistiu o filme “O Filho do Brasil”) sabe o que esse homem, ou esses homens, já tiveram que enfrentar e que deixaram marcas, e que a essa altura da vida são coroadas com um diagnóstico tumoral.

A gente sempre acredita que, aos 30 anos, estaremos colhendo frutos do sucesso (a não ser que se esteja com 29 e já se saiba que a vida é um fracasso mesmo...). Muitas vezes, eu acho que fiz as escolhas erradas, principalmente quando me comparo ao restante da minha família, quando vejo onde meus irmãos mais novos puderam chegar. Ingressar em um curso de nível superior nessa idade, em ciências exatas, é conviver todo dia com o fracasso e a derrota. Diferente de um curso de Letras, ou daqueles passageiros encrenqueiros do ônibus lotado, em um bom curso de exatas não dá pra empurrar com a barriga. Como diz minha amiga Júlia: “ou você se entende com as exatas, ou desiste delas”.

Enfrentar, e superar, o fracasso diário que é cursar pelo terceiro semestre consecutivo as disciplinas de Cálculo I e Geometria Analítica não tem se mostrado tarefa fácil. É constrangedor, embora seja a realidade de muitos, e finalmente eu percebo que estou me envolvendo com as disciplinas, com a “idéia” da coisa. Estou adquirindo a maturidade necessária pra seguir em frente nesse caminho. Acho que esse é o ensinamento mais importante... Ou talvez o mais importante seja aprender a calcular área sobre gráficos e ortogonalizar vetores, e esse seja o segundo mais importante...

Se a vida não sorriu pra mim durante todos esses anos, ela me presenteou com uma filha muito especial, com amigos que posso contar nos dedos, mas que valem por uma tropa de elite, e com uma força de vontade que só consegue me guiar em direção ao alto e avante. Pois se existe um conceito que definitivamente estou abolindo do meu vocabulário é o de “desistir”. Acredito que a palavra “desistir” só devia vir acompanhada de “nunca”, da forma como dizia minha antiga professora de inglês, quando ficou sabendo que tinha sido demitida e não podia contar aos seus alunos, em sua última aula ela insistia: “Never give up!”

Meu irmão Leo acha que sou louco. Porque só um doidão de pedra mesmo desiste de uma carreira na área de humanas – pra qual é vocacionado – pra cursar exatas. Ou vice-versa. E eu sou doidão. De pedra. Daquelas duras mesmo. Sou daqueles caras que tempera feijão com mel (Rsrs... não foi metáfora). Porque eu sei onde quero chegar, e vou insistir nisso, ainda que tudo pareça querer dizer que é hora de desistir. Se eu fosse te dar algum conselho, leitor, diria pra nunca dizer a alguém que é hora de desistir. Os mineiros do Chile não desistiram. O meu Galo não desistiu. O América não desistiu. E o Cruzeiro (infelizmente...) também não vai desistir.

E se lutar sempre é a ordem do dia, que ela seja realizada com um maravilhoso sorriso no rosto, compartilhada com uma verdadeira tropa de elite, e coroada, se Deus quiser, com diagnósticos de saúde, sucesso e paz!

Até meu próximo post... porque também não desisto desse blog.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

DE REPENTE... TRINTA (E UM DE JULHO)!!!

Engraçado como acho que poderia justificar de várias formas a minha ausência durante esses (quase) dois meses, mas o fato de não me aventurar a postar crônicas nesse período não se deu pela ausência de reflexões da vida, pelo contrário... Nunca tive tanta necessidade de repensar a sociedade moderna pós Amy Winehouse como agora, mas as pressões com a faculdade, a necessidade do ócio e (pasmem!) a falta das palavras certas me fizeram afastar dessa que é uma das minhas atividades preferidas (não, não mais do que SEXO, espero que já tenha deixado isso claro!). Mas acho que essa semana tenho motivos mais do que especiais para voltar a dirigir-me a esse querido blog e a meus fiéis seguidores, e não posso deixar passar essa belíssima oportunidade...

No próximo domingo, dia 31 de julho, completarei 30 anos de existência. Quando adolescente, achava que estaria milionário aos 30 anos e que todos os meus problemas estariam resolvidos, como num filme teen, em que numa fração de segundos o diretor avança a história quinze anos no tempo, e o garoto imberbe de pernas tortas é trocado por um ator forte, sarado, tendo finalmente conquistado sua paixão da adolescência... Na vida real não é assim que as coisas funcionam. Nós, seres humanos, pertencentes ao gênero dos homo sapiens, pansexuais, onívoros e pluricelulares não somos criaturas saídas do filme Avatar, ou de qualquer outra comédia romântica da Disney... não vivemos felizes para sempre, mas é engraçado como muitas vezes nos apegamos à situações circunstanciais para justificar a incapacidade de sermos felizes agora, como se algo de realmente relevante precisasse acontecer para que pudéssemos fugir de nossa responsabilidade com aquilo que acreditamos ser a plena felicidade. Cada dia que passa, vamos idealizando fatos que, se ocorressem, nos fariam acreditar na vida, nas pessoas, no amanhã... e vamos adiando nossos momentos de paz interior, de realizações, de compartilhamento, para que venham quando formos promovidos, ou quando concluirmos a faculdade, ou quando conseguirmos aquele emprego... e por aí vai.

Cerca de nove anos atrás, eu vivia no mundo das certezas. Com vinte e um anos, TINHA CERTEZA que tinha encontrado a mulher da minha vida, que nunca mais estudaria matemática de novo, que minha orientação era 100% católica... Hoje em dia, cursando Química na UFMG, com um casamento desfeito vivendo longe de qualquer preceito religioso (embora muito mais longe ainda de ser agnóstico... ), tudo o que sei é que as certezas que temos são grandes armadilhas das quais devemos fugir, ou nos prevenir, para evitar que grandes decepções se abatam sobre nossas cabeças...

Uma das minhas últimas certezas se esvaiu recentemente, mais precisamente no dia 01 de junho. Fui demitido de uma empresa para a qual trabalhei por oito anos. Coincidentemente, ingressei na companhia na mesma época em que comecei meu curso de Letras e me preparava para o casamento. Na época, eu TINHA CERTEZA de que não duraria mais do que seis meses naquele lugar, mas oito anos se passaram e tudo se tornou diferente. De alguma forma, o trabalho me absorveu a ponto de me definir pelo que eu fazia... e sabia fazer. Eu tinha respeito, status, um cargo elevado, tinha poder... e era extremamente infeliz!

A última razão para que eu não fosse feliz residia no fato de estar ali, fazendo o que estava fazendo. Então, com a demissão, fui forçado a encarar uma difícil realidade: não existia mais motivo para não ser feliz! Tudo dependia de mim agora. E eis que pairava a pergunta: ONDE está a felicidade? O que fazer para encontrar a felicidade?

Demorou alguns dias para eu perceber a vida não tinha ficado milagrosamente mais fácil por ter perdido o emprego e repentinamente estar livre para... fazer o que eu quisesse, ainda que não fosse nada! A cada dia eu precisava – e preciso – reinventar minha rotina porque quando acordo de manhã não sei o que fazer absolutamente. Foi amedrontador... abalou meu desempenho na faculdade (eu achava quer ia ajudar, mas só piorou!) o que me fez sentir ainda mais culpa, e pior de tudo agora era não ter a quem responsabilizar pela minha infelicidade.

Então passa o tempo e eu percebo – graças às 8 horas de sono por noite, até que enfim! – que felicidade é um conceito abstrato e subjetivo sim, mas que pode ser conquistada nas coisas do dia-a-dia que não necessariamente dependem do marco de grandes conquistas na vida. Ganhar muito dinheiro de uma vez só, ser aprovado em um concurso, conquistar alguém, traz uma enorme euforia, é verdade, mas sabemos que com o passar do tempo, voltamos ao nosso estado “normal”... não vivemos felizes para sempre! Assim como grandes tristezas não nos abalam eternamente ( a não ser que caracterizem traumas). O que nos faz viver felizes é o que fazemos com o que nos é oferecido todo dia, uma conversa com algum amigo que não se vê há algum tempo, ver um belo filme, decorar a casa, lavar o carro, tomar uma cerveja na companhia do pai, levar a filha ao parquinho e ficar empurrando-a no balanço, pagar aquela dívida de meses, dizer a alguém importante o quanto ela é especial na sua vida, comprar aquela camisa cara que você tava namorando a um tempão, fazer exercícios com prazer...

Engraçado como pequenas atitudes diárias me fizeram perceber que buscar um estado de total felicidade é inútil. É como ficar perseguindo o final do arco-íris, a gente vê lá longe, acha que está perto, mas nunca o alcança, sempre é necessário ir mais além, e esperar pela próxima chuva. E nessa inapetência, vamos culpando as circunstâncias da vida por algo que depende exclusivamente de nós. Porque no fundo, é mais fácil lamentar a própria sorte do que assumir o fardo da felicidade. Nascemos para sermos felizes, mas a inércia nos conduz a um estado de total apatia, tristeza, depressão e morte.

Não foi à toa que alguns meses atrás adotei como dogma o lema de que “A vida vale a pena HOJE”. Percebi desde minha última promoção que não era o status, não era dinheiro, ou o poder de decidir a vida das pessoas que me trariam o equilíbrio necessário para superar minhas angústias, pelo contrário. Descobri que felizes mesmo eram aqueles que ocupavam as categorias de base, que sofriam suas dificuldades financeiras mas conquistavam amizades sinceras, programavam happy hours toda sexta-feira após o expediente (eu nunca sabia a que horas ia sair da empresa, especialmente às sextas-feiras) e que conseguiam separar a vida profissional da vida pessoal. Não que eu não pudesse fazer o mesmo, para o bem de todos e da minha própria sanidade deveria tê-lo feito, mas descobri à duras penas as grandes responsabilidades que vêm com grandes poderes.

Não quero dizer contudo que a descoberta de mim mesmo fez com que eu tenha desistido de dar grandes saltos na carreira, de jeito nenhum. Por tudo o que aprendi na vida e com meus pais, acredito que somente o céu é o limite para quem não tem medo de sonhar! Mas a jornada até lá passou a ser encarada com outros olhos, pois na verdade é ela o grande desafio, muito maior do que o lugar onde se chega finalmente. Atingir a maturidade, saborear os anos que se vão, sentir que se aprendeu algo ao longo da vida, transmitir com sabedoria aos mais jovens o que se adquiriu, tudo isso traz um prazer imenso, e para os que tem medo que o tempo passe, eu sempre me lembro que envelhecer não é tão ruim quando se pensa nas alternativas...

E que venham mais trinta anos!!

Gustavo Jonathan Costa

“Por que, mais do que nunca, a vida vale a pena HOJE!”

PS: A propósito, na segunda-feira, dia 01 de agosto, começo a trabalhar novamente. Desejem-me boa sorte!

terça-feira, 3 de maio de 2011

DIA DO BEIJO

Como bom representante do gênero masculino, tenho uma obsessão quase obsessiva por sexo. Desgraçadamente, como não compartilho da mesma afinidade que meus congêneres por futebol, acabo não tendo outro tipo de assunto ou idéia fixa. Felizmente, o mundo moderno permite que a Síndrome de Pavo seja direcionada em prol da humanidade, na construção de aeronaves espaciais e nos fundamentos do princípio de incerteza de Heisenberg.

Também no desenvolvimento da arte de se relacionar fomos beneficiados com a Síndrome do Pavo e com a emancipação feminina, que até onde me consta, tem agraciado mais homens do que mulheres, pois se tal fenômeno social não houvesse ocorrido, não teríamos tantas beldades posando nuas nas revistas masculinas (e ainda sendo consideradas modelos sociais). Como um selvagem domesticado, aprendi a direcionar minha obsessão obsessiva para outras nuances do corpo feminino, capazes de me transmitir tanto ou mais prazer do que a simples prática sexual.

A boca por exemplo... esse órgão enaltecido por poetas e poeteiros desde a Antiguidade - e cuja utilidade também para os "atos orais" é bem apreciada - consegue despertar nesse escritor nostálgico sentimentos que vão desde as mais inconfessáveis manifestações instintivas aos mais sublimes sentimentos. Não há quem possa negar que a maior invenção humana, superando a própria Mona Lisa, é o ósculo propriamente dito. Pois correndo o risco de parecer um grande 171, obrigo-me a dizer que a prática do beijo me seduz ainda mais do que o sexo stricto senso. Sexo é orgânico. Preciso dele, como de água e alimento todos os dias. Também é efêmero, fácil de ser conseguido se a prioridade é tão somente o atendimento a uma necessidade primitiva. É claro que, como para satisfazer a qualquer outro instinto aprimoramos e sofisticamos as manifestações de nossos prazeres. Envolvemo-nos sentimentalmente com os objetos de nossos desejos - e com as donas dos objetos. Desenvolvemos formas de conquista. Estudamos o outro, nos interessamos sinceramente pelo que pensa e sente, e somos recompensados com orgasmos múltiplos, ainda que para nós homens sejam um a cada vinte minutos, no mínimo.


Porém, pra gozar por gozar, nem é necessário parceiro. Homens e mulheres são auto-suficientes na auto-compensação mecânica da falta de sexo. Já para o beijo não. Esse requer necessariamente e obrigatoriamente uma segunda pessoa, exige que haja consentimento, e ainda que não haja amor, é necessário que haja tesão, desejo, química. Beijo tem que ter afinidade. Tem que começar com aquele leve toque nos lábios, que faz a gente sentir o gosto gostoso do batom ou do brilho, sentir a boca da garota ligeiramente mais fria que a nossa. Então, depois do primeiro selinho, vem outro, e de repente uma energia eletromagnética começa a te puxar para mais perto, e você não vê mais os olhos, o cabelo, somente aqueles lábios na sua frente.


Então alguém dá um tranco no corpo do outro. Pode ser você, pode ser ela, ninguém mais sabe, pois quando se dão conta, já estão de olhos fechados, sentindo bem de perto a respiração ofegante, um gemidinho que vem lá do fundo da alma, e por fim você quer de repente sentir tudo, as mãos envolvem as costas, o pescoço, glúteos, enquanto línguas se entrelaçam, atrevidas, uma penetrando o esconderijo da outra, em ritmo sincronizado, combinado, acordado, elas se impõem e se subjugam, dominam e se deixam dominar...

Diferente do sexo, o beijo não define papéis sexuais. Não tem regras, não tem posições, só exige que duas bocas estejam suficientemente próximas para se devorarem umas às outras. Ele pode ser comportado, por pudor, mas um beijo de verdade não consegue ser fingido, dissimulado. Prostitutas abrem suas borboletas para seus clientes, mas não conseguem beijá-los na boca. E mesmo casais cuja relação esfriou há vários anos continuam fazendo sexo embora raramente seus lábios entrem em contato.

Um beijo pode durar uma eternidade. De tão prazeroso, ele jamais sacia a si mesmo. Após o sexo, trocam-se algumas carícias, dizem-se algumas besteiras e logo o corpo cede, e acaba-se dormindo... (ou pula-se toda a parte das carícias e dorme-se imediatamente). Mas o beijo dificilmente nos deixa desvencilharmos dele. Ao nos despedirmos, gastamos horas trocando os últimos selinhos da noite (ou do dia). Nostálgico que sou, tenho registrado 69 minutos ininterruptos em um longo e demorado sorver de lábios, dentes e língua... do qual jamais me esqueço.

Sexo é bom, mas se torna ótimo quando começa com beijo. Aquele beijo que não te desgruda enquanto você a joga na parede, e se despe de camisas, shorts, sapatos, mochilas, agendas e cordões... E continua rolando solto, os corpos já nus um sobre o outro, lambendo saliva, maquiagem , suor e fios de cabelo. E quando se desgrudam os lábios, vão logo ao encontro de orelhas, de pescoços, de seios, tal a vontade e o desejo de continuar sorvendo toda a transpiração do outro corpo. Muitas vezes é acompanhado de mordidas discretas em lugares estratégicos, suplementando dessa maneira o prazer mútuo proporcionado pela boca.

Mas beijo não termina necessariamente em sexo. Depende de clima, de lugar, de ambiente, de expectativas que temos em relação à parceira ou parceiro. É claro que, se beijamos, queremos. Mas ainda que não façamos, só pelo beijo, vale a pena. A gente fica com aquela lembrança, aquela saudade, aquela vontade do reencontro, só para beijar mais, muito mais... e fazer todo o resto que ficou pra trás.

Beijo é assim. Pode ser seco, molhado, combinado ou roubado, mas tem que ter. E se for todos os dias, não enjoa não. Mas se der saudade, tanto melhor! Por isso todo dia deveria ser declarado Dia do Beijo, para que todo individuo com sangue nas veias e calor nos lábios esquecesse um pouco seus problemas e beijasse... beijasse e se deixasse beijar!

Até meu próximo post.

Gustavo Jonathan Costa

Porque a vida vale a pena HOJE!