quarta-feira, 20 de setembro de 2017

SOBRE MACHISMO, FEMINISMO E “CULTURA DO ESTUPRO”...



Acabei de ver uma charge numa das páginas que sigo no Facebook que me fez pensar. Na charge, um entrevistado em um programa de auditório diz que os pais devem ensinar as filhas a “não se vestirem como prostitutas” para evitar que “maníacos degenerados as enxerguem como alvos preferenciais”. É claro que o cara foi acusado pela plateia de ser machista e fascista, com as mulheres engrossando o coro de que deve-se educar os meninos a não estuprar.

“Educar os meninos a não estuprar”? Nunca me passou pela cabeça que um pai de família em sã consciência alguma vez tivesse dito a um filho que é certo estuprar alguém, que é certo roubar alguém, que é certo matar alguém. Não consigo acreditar que qualquer pessoa com um mínimo de formação moral sinta prazer diante do sofrimento, e não falo só de crimes sexuais não. Qualquer tipo de tortura física ou mental. Só pode ter havido algo de degenerado na formação desse indivíduo.

Muitas vezes eu sinto que existe algo de incompreendido quando se diz: as mulheres deveriam se cuidar mais! Uma mulher em roupas sensuais ou provocantes NUNCA, NUNCA, NUNCA dá o direito a alguém de agredi-la ou violenta-la. NUNCA! Da mesma forma que alguém que deixa o carro estacionado em frente numa rua deserta a noite e não fecha os vidros e deixa a chave na ignição NUNCA dá o direito a outra pessoa leva-lo. NUNCA! É o carro DELE, não de outra pessoa. Também é o corpo DELA, não de outra pessoa.  Mas se o carro é levado, a sociedade diz: a culpa foi sua, quem mandou deixar o carro aberto? Mas hein? Minha culpa? Era MEU carro... O fato dele ter ficado aberto NÃO dá o direito de ninguém leva-lo.  Ou culpa de quem não educou o ladrão de que não se deve levar o que não é dele?

EU APRENDI DESDE PEQUENO que não se deve pegar coisas que não me pertencem, da mesma forma não se deve tocar em pessoas que não querem ser tocadas (mesmo se sua aparência física provoque meus instintos!). Uma mulher bonita pode ser admirada, flertada desde que com respeito, e se ela diz NÃO, ACABOU! Não te quer, vá embora! Mas isso sou EU que sei, EU e a grande maioria dos HOMENS DE BEM que conheço, meu pai, meus irmãos, parentes e amigos.

INFELIZMENTE, SEMPRE vai existir uma minoria de DEGENERADOS, que são MINORIA SIM, mas fazem tanto estrago que parecem maioria, que ACHAM que podem usufruir do que não é deles, dos objetos do outro (ah, aquele carro estava dando sopa com o vidro aberto/ a menina estava toda distraída com aquele celular, eu fui lá e peguei!) do corpo do outro (estava vestida igual uma vadia/era uma criança tão inocente...). Pessoas assim não PODEM ser consideradas normais, porque pelo menos no MEU senso de normalidade não cabe um comportamento TÃO antissocial (isso pra falar o mínimo)!

Um homem que consegue se masturbar em um ônibus lotado sem se constranger com a presença dos demais ao redor perdeu completamente a noção do que é viver em sociedade. Não pode participar do convívio com outras pessoas porque não vai saber quais são os seus limites. É inconcebível pensar que nossas filhas, mães, esposas vão andar pela rua com um sujeito desses à solta por aí.

Não adianta levantar cartazes e bandeiras exigindo que, “antes de legislar sobre nossas roupas, ensinem os meninos que é errado estuprar”. Os estupradores já estão aí, e coloca-los na escolinha de civilidade não vai fazer com que mudem suas atitudes. E da mesma forma que preciso proteger meu bolso, meu relógio, meu carro, as mulheres devem aprender a proteger seu corpo. Fico assustado quando essa conversa vira uma disputa de gêneros, como se os homens fossem todos “machistas, defensores da cultura do estupro, estupradores em potencial”. Não somos! Podemos não sofrer na pele por causa dos abusos, mas temos pessoas próximas por quem tememos muito mais do que por nós mesmos. E muitas vezes vi mulheres sendo criticadas por OUTRAS MULHERES por causa de roupas e atitudes, legislando sobre o comprimento da saia, o tamanho do decote da outra.   De fato, a sociedade tem que parar de tratar como normal e tratável esses desvios GRAVES de comportamento, quer seja na rua, no ambiente de trabalho ou na igreja. Infelizmente, nossa sociedade se tornou DOENTE por não poder garantir a todos a segurança que é um DIREITO nosso, como ser humano.

A sociedade, como TODO ORGANISMO VIVO depende de órgãos saudáveis para funcionar corretamente, e nós vivemos num meio em que ideologias retrógradas defendem o DIREITO de vida dos componentes mais defeituosos, mesmo que esses massacrem com os bons. Em medicina, chamamos isso de CÂNCER.


E o CÂNCER, meu amigo, quando dá metástase, é DIFÍCIL de curar... 

terça-feira, 23 de maio de 2017

A UFMG E O SUICÍDIO ESTUDANTIL

Venho acompanhando de longe os desdobramentos do caso do(s) estudante(s) que se suicidou(aram)  dentro de uma moradia da UFMG e o clamor de alguns entusiastas que afirmam que “A UFMG mata”. Sou estudante do 7º período de Farmácia, concluí a graduação em Letras e 5 períodos do curso de Química, então tenho certa experiência para afirmar categoricamente que A UFMG NÃO MATA.

A Universidade Federal de Minas Gerais é um dos principais centros de ensino, pesquisa e extensão da América Latina, e oferece capacitação gratuita. É natural que seja competitiva e queira selecionar os candidatos mais preparados para os desafios que o mercado industrial e acadêmico oferecem.  Para ingressar em qualquer curso na UFMG, o aluno tem que se preparar bastante para tirar uma boa nota no ENEM,  “entrar de cabeça na graduação”, viver a faculdade e se envolver “de verdade” com as disciplinas.

Acontece que produzimos hoje uma geração pouco acostumada a sacrifícios, cujos ídolos são pessoas que conquistaram fama e fortuna bem jovens e com pouco estudo, e muitos acham que esse é o modelo de vida que se precisa alcançar. Alguns ingressam na faculdade por status, sem certeza de que é isso mesmo que querem, mas só para “ter diploma superior “ e “porque é de graça”. E a faculdade exige sacrifício, exige dedicação, exige renúncia.

A UFMG NÃO MATA – O QUE MATA É O SEU DESPREPARO para enfrentar uma vida adulta, de responsabilidades. A UFMG não controla seus horários, o controle de presença em sala de aula é mera formalidade. Desde os tempos de COLTEC – onde fiz meu curso técnico, sempre tive autonomia para decidir quando estudar, quando ir às aulas... E as disciplinas eram pesadas, o meu domínio dos conhecimentos da química e da matemática hoje são muito superiores aos de profissionais oriundos de outros escolas técnicas, e olha que essas são áreas do conhecimento para as quais nunca fui vocacionado. Aprendi “na marra” mesmo.


ADMITIR FRAQUEZA NUNCA FOI SINÔNIMO DE FRACASSAR – quando eu percebi que o curso superior de Química não era para mim, simplesmente tratei de abandoná-lo e começar uma nova graduação. E nessa época eu já contava com mais de 30 anos. Eu entendo que o sistema das EXATAS é muito diferente do de HUMANAS (pois eu vivi as duas realidades). Quando comecei a estudar Química e me deparar com disciplinas como Cálculo I e Geometria Analítica, comecei a perceber o quanto você pode estudar e estudar muito e mesmo assim tudo dar errado. As ciências exatas são frias e cruéis, você não consegue simplesmente “empurrar com a barriga”. Uma amiga uma vez me disse: “ou você se entende com as exatas, ou desiste delas!” Aquilo me marcou. Se tanta gente consegue, por quê eu não? Em meu primeiro mês no Departamento de Química, numa disciplina chamada Ciclo de Palestras – em que diversos profissionais nos apresentavam os rumos da nossa nova profissão – o COORDENADOR do curso afirmava que “nosso objetivo é fazer vocês DESISTIREM. Tenho pena de vocês, porque só aqueles muito persistentes mesmo é que vão chegar até o final”. Eu sempre tomei isso como incentivo, como uma provocação que ia me fazer chegar até o final. Não cheguei, pelo menos não na Química, mas continuo vendo tanta química quanto antes, na Faculdade de Farmácia.


A UNIVERSIDADE NÃO É MÃE, aqui nós somos adultos, temos autonomia e responsabilidades e temos que arcar com elas. Não somos mais adolescentes em formação. Se não superamos nossos traumas da juventude, nossa missão é procurar recursos – inclusive DENTRO DA UFMG – para superá-los. Sabemos de nosso compromisso com o mundo e o quanto é importante para nossos amigos e para nossa família que estejamos vivos e bem. A UFMG tem um Departamento de Saúde Mental, coordenado pelo Departamento de Medicina, com profissionais que se formaram aqui mesmo e entendem o drama dos estudantes. Mas não é papel dos professores localizar estudantes com problemas de adaptação e encaminhá-los para o Departamento, é responsabilidade DO ALUNO, que é um ADULTO, procurar ajuda, e a família, se possível, dar todo o suporte emocional para esse indivíduo.

Contamos com a Universidade Federal de Minas Gerais para que ela continue sendo REFERÊNCIA em ensino de qualidade e um centro de pesquisa respeitado em todo o mundo, e que esse papel não seja prejudicado pelas acusações GRAVES que tem sido feitas, cujas consequências podem impactar diretamente na qualidade do que se tem exigido dos alunos, pois no final das contas, é o sacrifício e a dedicação de cada um que faz da UFMG a Universidade dos sonhos de qualquer brasileiro.  







segunda-feira, 1 de maio de 2017

Meus 13 porquês - Ou o que o bullying pode fazer com você

O bullying não é um problema moderno, nem frescura de crianças e adolescentes que estão surgindo numa geração covarde e sem referências. É um problema antigo, e os adultos de hoje sabem muito bem os danos que é capaz de provocar. Fui alvo de zoações durante uma parte considerável da minha vida. Uma parte das brincadeiras vinha sim de amigos para os quais eu  podia revidar sem que isso afetasse a relação que eu tinha com eles. Mas uma outra parte, uma grande parte, vinha de outros jovens que não tinham o outro interesse que não fosse me destruir, acabar com todos os resquícios de auto-estima e autovalorização que meus pais passaram a vida inteira lutando para construir em mim... 

Quando eu era criança pesava acima da média, como a maioria dos garotos da minha família. Isso por si só já era alvo de muitas zoações. Mas além disso, minhas brincadeiras e diversões não eram lá muito ortodoxas, o que me fazia me sentir muito diferente dos garotos da minha turma. Não era fã dos esportes (principalmente com bola) e sempre preferi ler e escrever, e mesmo os esportes nos quais eu acabei me tornando versátil (como nadar e andar de bicicleta) acabei aprendendo somente depois dos meus irmãos mais novos, o que por si só já era suficiente para ser mais alvo de zoações. 

Quando me tornei adolescente fui estudar no COLTEC - UFMG, uma das escolas técnicas mais conceituadas de Belo Horizonte, mas aí as coisas também não foram tão melhores do que pensava que seriam. Fiquei marcado por uma brincadeira da minha mãe (de pintar o meu cabelo) e ganhei um apelido que me perseguiu o curso inteiro (Mecha). Simpatizei-me com o apelido, mas a humilhação que me levou a tê-lo com certeza vou levar para o resto da vida. As calouradas no COLTEC eram um pouco mais pesadas do que hoje são permitidas no campus, e justamente por ter me sentido tão mal no meu primeiro dia de aula, quando me tornei veterano, fiz o máximo que pude para preservar e proteger os novos calouros para que não se sentissem tão humilhados e desamparados como eu me sentia nos primeiros dias de aula. 

Muitos jovens conseguem sobreviver ilesos à essas "brincadeiras", mas àqueles que, como eu, por diversas razões tiveram sua autoestima comprometida na infância ou na adolescência encontrarão enormes dificuldades quando chegarem à vida adulta. Por que vemos muitas vezes adolescentes sofrendo de anorexia, abusando dos métodos ilícitos para atingir um corpo perfeito na academia, ou atravessando diversas sessões de cirurgia plástica e se tornando irreconhecíveis, na tentativa de se ajustar a uma imagem que jamais alcançarão? Porque não tiveram a autoimagem bem construída numa idade em que afirmação e aceitação é TUDO o que um adolescente precisa. Fazer parte de um grupo e construir uma identidade é tão importante para um jovem quanto ter emprego e ser capaz de sustentar uma família é importante para o adulto. Transforme um jovem num renegado e você estará contribuindo para enriquecer psiquiatras, legistas, farmacêuticos e advogados criminais. 

Eu acompanhei emocionado ao seriado "mais badalado do Netflix no momento", 13 Reasons Why ou Os 13 Porquês e resolvi engrossar o coro das pessoas que lutam a favor da vida! Os jovens que levaram a protagonista ao suicídio não tiraram a vida da garota, mas tiraram TUDO o que ela tinha de mais importante, até não lhe restar mais nada. Foi um desfecho cruel e apaixonado de uma realidade que se passa em muitas escolas, para muitos jovens... 

Eu queria que muitos daqueles que passam por isso pudessem estar lendo esse texto agora para que eu pudesse lhes dizer: JOVEM, NÃO DESISTA! A vida me ensinou que as pessoas só fazem com a gente o que a gente permita que faça. E que os jovens que te tratam assim também são tão inseguros quanto você. Provavelmente você se tornou um alvo por algo que fez ou por algo em sua aparência, ou por alguma inaptidão nas matérias ou nos esportes. Mas não se cale! Não permita que te usem para esconder os próprios defeitos. Conversem com seus pais, professores, dê a volta por cima!

Eu não sei ao certo dizer como e quando superei meus maiores traumas de adolescência. Foram muitos, e preferi não listá-los para não tornar pesada a leitura desse texto.  Mas a que devo a superação de muitos dos meus traumas? Vou tentar listar aqui algumas das 13 razões (ou meus 13 porquês) que literalmente salvaram a minha vida e me tornaram uma pessoa melhor: 

1 - Aprendi a me amar, acima de qualquer coisa. Aceitei que o mundo sempre vai ser pior sem mim, SEMPRE! Que sempre vão existir problemas, que sempre haverá desafios, mas que existem pessoas que precisam de mim, de qualquer jeito, apenas existindo, para fazer a vida delas fazer sentido. 

2 - Aprendi muito com a  Programação Neurolinguística, a ciência que molda a sua realidade de acordo com seus pensamentos. Não é fácil mudar o que pensamos de nós mesmos quando outros já nos transformaram em fracassados mas em última instância aprendi que quem diz o que eu sou e o que eu não sou é apenas eu mesmo, ninguém mais. Ao invés de repetir pra mim mesmo "sou um fracassado", digo "sou um vencedor", "estou superando mais essa", mesmo que ainda não esteja. A linguagem remodela o significado do que estou vivendo e tudo se transforma. 

3 - Passei a não aceitar rótulos, de espécie alguma, nem os positivos - que te forçam a demonstrar virtudes que nem sempre  eu tenho e colocam uma responsabilidade absurda em meus ombros - nem os negativos - pois esses são extremamente nocivos e paralisantes, e por isso mesmo os rejeito sumariamente. 

4 - Aprendi a me cercar das pessoas que pensam igual a mim. Se eu não gosto de jogar futebol e só fico lendo revistas do Homem-Aranha, existe um grupo de pessoas que gosta exatamente disso. Se não sei a escalação do meu time de 1999 mas sei o nome de todos os Changeman, Flashman, Cybercops e Cavaleiros do Zodíaco, também encontro pessoas que são assim. E de coincidências em coincidências, acabei percebendo que sim, existe espaço pra mim no mundo... 

5 - Comecei a valorizar minhas potencialidades pelas coisas que ouvia a meu respeito. Assumi meu lado escritor, descobri minha afinidade com as exatas e com o Excel. Embora não seja soberbo, nem arrogante, gosto de me refugiar nas coisas que faço bem. Sempre que ouvir de várias pessoas o quanto você faz bem isso ou aquilo, invista. Às vezes é um talento natural que você nem sabe que tem, e só percebe porque os outro não têm. Sempre me disseram que escrevo bem, mas nunca consegui ensinar a ninguém como escrever bem. Apenas vou lá e faço... 

6 - Aprendi a fazer bem as coisas sem esperar para ser elogiado, apenas para me sentir bem. Sempre defendi a máxima de que "as pessoas que se elogiam não precisam do meu elogio", ao contrário das pessoas que fazem o trabalho bem feito em silêncio, quando colocam o trabalho em primeiro plano, chamam mais a minha atenção. Quando te pedirem para fazer um trabalho, não digam: "chamou a pessoa certa, eu sou o cara! Você não vai se arrepender!", porque isso eleva demais as expectativas de quem vai receber seu trabalho. E se seu trabalho não for tão bom quanto à propaganda, vão te criticar e isso pode te deixar pior.  Apenas faça e deixe que a qualidade do que foi feito fale por você. Os elogios virão. 

7 - Aprendi a lutar pelo que eu quero. Que não devo aceitar uma posição medíocre na vida. Que se meu sonho for morar na Europa, trabalhar em grandes centros de pesquisa, falar várias línguas, ser uma referência científica internacional, é exatamente isso o que eu vou fazer. E ponto final. 

8 - Também aprendi a respeitar meus limites. Não adianta achar que serei um jogador de futebol super famoso começando a jogar aos 36 anos... Nem um cantor de renome internacional sem nunca ter feito uma aula de canto sequer. Meus sonhos podem ser grandes, mas são realistas. 

9 - Descobri que não é possível ser feliz sempre. Tem dias que nada dá certo, a tristeza bate mesmo. Não tem remédio que sare! Nesses dias, melhor mesmo é ficar um pouco mais recluso, aceitar a tristeza e esperar que ela se vá. Saborear os maus momentos faz com que dê mais valor aos bons... Mas não se acostume com a tristeza, nem deixe que ela faça moradia. Expulse-a tão logo quanto possível! 

10 - Quando nada dá certo, é hora de procurar ajuda. Ela pode vir de um irmão, mãe, pai, esposa, ou um profissional. Não é vergonha pedir ajuda, se sentir mal, ficar pra baixo. Vergonha é se esconder e fingir que tudo está perfeito. Sou humano e fraquejo, como todo mundo. Já sofri de depressão e ansiedade crônicas por isso sempre observo meus sentimentos a fim de perceber se estou correndo o risco de sucumbir a alguma dessas doenças... 

11 - Rir é um santo remédio. Quando o mundo está uma b*$T@, eu procuro por programas leves, comédias, stand ups, talk shows que me fazem rir. De preferência, acompanhado. Se rir é bom, rir junto é melhor ainda.  

12 - Aprendi a ter empatia, a perceber que existem pessoas que sofrem tanto ou mais do que eu. Ajudar ao próximo alivia demais, me faz esquecer meus sofrimentos e me faz sentir importante, especial! Se você puder ouvir alguém, ouça. Se puder visitar um asilo, visite! Se puder doar sangue, doe! Se puder doar uma roupa, faça-o! Se souber dar aula para alguém, faça-o também. Mas não faça para aparecer, para se autopromover, faça escondido, sem textões no Facebook, pelo simples prazer de ajudar. Se for divulgar, divulgue O GESTO, não você!  Envolver com os problemas de outra pessoa faz com que a gente se esqueça dos próprios problemas e se sinta mais leve... 

13 - E finalmente, percebi que sou ÚNICO, e por isso mesmo, ESPECIAL. Eu percebo coisas e realizo coisas que NINGUÉM MAIS é capaz de realizar. Então, assim como eu, VOCÊ faz parte de um Projeto Especial, maravilhoso, porque você foi projetado pela natureza e pelo seu Criador para ser exatamente ASSIM COMO É. O que você chama de limitações, defeitos, são oportunidades de construção e lições para o amadurecimento seu e de TODA A HUMANIDADE. 

Abraços a até meu próximo post... 



sexta-feira, 22 de agosto de 2014

ALIVE

(Por favor, se ainda não leu A Única do Mundo eu recomendo que leia antes de prosseguir por aqui...) 


A aventura do conhecimento é libertadora, mas não atinge seu objetivo se não vier acompanhada de doses cavalares de humildade e simplicidade. Não existe nada mais desagradável do que conviver com pseudo-sábios que estão sempre a destilar ao redor de si as honrarias que conquistaram ao longo da vida, por trabalharem em tais e tais lugares e terem feito tais e tais cursos e por isso sentirem que tem autoridade para argumentar sobre todos os assuntos, sem que ninguém lhes tenha perguntado. Ao contrário, quem realmente sofreu as dificuldades do saber reconhece que na verdade sabe muito pouco, ou quase nada a respeito do mundo que o rodeia, e por isso mesmo aprende a colocar-se no seu lugar e valorizar a experiência de cada um. Os verdadeiros sábios permitem que as pessoas do seu convívio descubram sozinhas que estão diante de um sábio, e dessa forma são levadas ao respeito e à admiração, muito maiores do que o que sentem por aqueles que tentam se impor. 

A vida ensina sim, é verdade, mas ensina coisas da VIDA. Existe uma discussão muito acirrada sobre o conhecimento acadêmico e científico versus o conhecimento prático, que sob meu ponto de vista não leva a lugar algum. Os defensores do conhecimento prático, às vezes por preguiça ou ignorância, batem no peito dizendo que "sabem mais do que muito doutorzinho por aí", porque já viu de tudo nessa vida e tem experiência pra contar. Jamais pararam pra pensar na possibilidade de a maioria desses "doutorezinhos" também terem sofrido emoções suficientemente fortes para lhes conferir alguma autoridade sobre a vida, o que nada tem a ver com o conhecimento acadêmico, que é só um recorte verticalizado do saber. Por outro lado, é claro que entre os defensores do academicismo há aqueles que enxergam toda a sabedoria popular como rude e atrasada, e não conseguem compreender como o mundo não se encaixa perfeitamente nos seus perfeitos modelos teóricos. 

A faculdade já me prestou experiências valiosíssimas, além de um diploma em que trocaram o nome da minha mãe pelo nome da minha tia (vai entender!). Cinco anos de Letras e nada na minha vida que me lembre desse período, exceto o fato de ter conquistado grandes amigos e escrever num blog para compartilhar um pouco algumas lições pessoais, aquelas que a vida ensina de maneira tão exemplar que mesmo se tivesse escrito no quadro 1000 vezes não teria aprendido. Uma delas, talvez das maiores, registrei aqui nesse blog, há três anos, mais precisamente no dia 20 de abril de 2011, numa crônica intitulada: Única do Mundo. Naquela época eu vivia muito só, trabalhava e não tinha amigos nem namorada, os estudos iam mal e comecei a dar valor para as pequenas coisas da vida, aqueles ensinamentos que fazem os defensores do conhecimento prático vibrarem. O que a dor de perder pessoas queridas pode nos ensinar foi ilustrado com uma história inusitada... há cerca de 15 anos conheci uma pessoa que se tornou muito amiga, mas depois de algum tempo perdemos contato. Muitos anos depois tentei reavivar nossa amizade, mas foi em vão... De uma forma esdrúxula eu descobri o porquê. Foi assim que escrevi na época:

"Ela já tinha feito uma pesquisa em todos os sites de busca conhecidos por alguém que tivesse o mesmo nome que ela (...) e jamais encontrou uma só homônima. Lembrei-me dessa história e sabia que, se digitasse o nome dela no Google, as únicas ocorrências seriam para ela mesma, e eu poderia ter alguma pista de onde minha amiga andava, que não me dava notícias.

E foi assim em 2009 que descobri que, desde o ano em que eu a vira pela última vez, minha amiga está morta, vítima de um aneurisma cerebral."

A morte tinha interrompido de maneira trágica a vida de uma garota cheia de sonhos como tantas outras, e enquanto eu digitava, as lágrimas brotavam da minha alma e encharcavam meus dedos. A dor de revelar isso foi mais intensa do que a que senti na época, fiquei tanto tempo anestesiado que só em 2011 pude pôr pra fora o que sentia em doses homeopáticas desde 2009. Aos 30 anos ainda não estamos preparados para perder nossos amigos, já tememos por nossos pais, tios, avós, mas jamais pensamos que o mesmo pode acontecer com aqueles de nossa geração. Mas acontece. E quando acontece, somos tomados por aquele impasse, a velha indagação do porquê de tudo isso estar acontecendo, quais os desígnios de um Criador tão bondoso em tirar de perto de nós pessoas tão queridas, às vezes de forma estúpida, imponderável, injustificável... 

Descobri que a busca pela verdade é algo genuíno, mas a afirmação de tê-la encontrado é pura vaidade. Se existe realmente uma Sabedoria Infinita que transcende todo o Universo, de onde me partem as credenciais para Lhe colocar o dedo em riste cobrando explicações? Pois ao mesmo tempo que defendo a "sabedoria dos sábios" humanos, não deveria da mesma forma me curvar diante daquela do Autor de todo o conhecimento? 

Com esse espírito, procurei entender com tudo isso algo que busco compartilhar com quem se dedica a gastar alguns minutos em ler meus textos. A certeza de que "cada vez que deixo de dizer 'eu te amo', corro o risco de ter perdido a última chance, a derradeira chance, de fazer com que quem eu amo saiba de fato que é amado. A distância entre o que foi e o que nunca mais será é muitíssimo pequena, entretanto, o que nunca será e o que poderia ter sido é infinita. Não há vergonha em ser intenso, se isso implica em ser honesto com os próprios sentimentos. Engraçado como a gente gosta de ouvir, mas tem vergonha de dizer. E de não em não, vamos passando pela vida, fechados em nós mesmos, até que o irônico destino se encarregue de tirar de cena os únicos do mundo pelos quais descobrimos tarde demais que esperaram a vida inteira por um simples gesto nosso."

Todos que já passaram pela experiência da perda sabem muito bem o que quero dizer. O que não daríamos pra ter uma última chance de dizer: "puxa vida, obrigado por tudo! Te valorizo muito, você é muito querido por mim". Um minuto, um segundo que seja só pra novamente poder abraçar, ou ver alguém sorrir de novo, sonhar...

Podemos guardar fotos, cartas, mensagens, lembranças... mas jamais trazer alguém de volta. Todos os nossos avanços científicos, pesquisas com células-tronco e replicações do DNA, o conhecimento sobre o Universo e a nanotecnologia não nos fornecem o instrumental necessário para que a Morte seja trapaceada. 

E todos esses anos carrego comigo uma dor silenciosa por conseguir comover a tantas pessoas sem poder contar a uma em especial que ela fez e faz parte de tudo isso, de toda essa descoberta. Dias atrás, passeando por algumas caixas antigas na Casa do Saci (como eu chamo a casa dos meus pais) encontrei um monte de cartas feitas à mão, escritas entre 1999 e 2001 por vários amigos, entre eles essa minha amiga, Ri, uma garotinha na época. Suas cartas eram tão felizes, se dobravam quase como um origami e sua letra era impecável. Ela fazia desenhos nos envelopes e na carta também, falava do futuro como se ele nunca fosse chegar... e não chegou.

Ler de novo aquelas cartas me comoveu muito. No envelope, um endereço de Belo Horizonte que fica tão perto de onde trabalho! E na época, tudo tão difícil, adolescentes dependentes de dinheiro dos pais, sem noção de como pegar ônibus direito em Belo Horizonte, pouco ou nada nos víamos, quando raro falávamos ao telefone e vez ou outra mandávamos cartas. 

Aquele envelope com aquele endereço me despertaram a vontade de visitar a antiga casa da minha amiga, conhecer sua família, saber como aprenderam a viver sem ela, levar minha crônica para que soubessem que também considerei a filha deles uma pessoa muito especial. Planejei essa visita  por algum tempo, sem coragem de encarar a verdade, de aparecer por lá e não me encontrar com ninguém - afinal de contas, nossas cartas eram de 1999!!!! Podiam ter se mudado, morrido todo mundo, quem sabe! Mas eu precisava saber...

Levou alguns dias até que em 21 de agosto de 2014 eu saí do trabalho e coloquei o endereço no meu GPS. Vi o trajeto, dez minutos pra ir, vinte pra voltar pra UFMG, dez a quinze minutos de conversa, no máximo, com alguém da família, entregar minha crônica e ir embora a tempo de chegar às 19h na Universidade. E assim, com o pensamento nas nuvens, ouvi a voz feminina do meu GPS anunciar: você chegou ao seu destino! 

No portão, ainda hesitei em apertar a campainha, pois não sabia o que dizer. Ensaiei algumas palavras, fiquei imaginando quem iria aparecer. Toquei. Esperei longos minutos. Nada.

Toquei novamente. Esperei. Nada. Já ia para o carro quando ouvi uma movimentação. Meu coração gelou. 

Um senhor abriu a porta. - Boa noite, pois não? - disse ele, muito educado.

Eu me aproximei pra que ele ouvisse. Sei que minha voz sai quase inaudível normalmente, ainda mais quando estou nervoso. Com o envelope da minha falecida amiga na mão e minha crônica na outra, perguntei: "por acaso é aqui que morou a Ri"?

"Morou não. Mora!"

"Como senhor?"

"Ela ainda mora aqui. Quer falar com ela?"

"Mas ela não teve um AVC?"

"Sim, há uns onze anos. Ela ainda está se recuperando, mas está bem. Não quer entrar e falar com ela?"

(Vocês vão ler esse texto em sequência... mas aqui eu preciso parar e respirar! Reviver isso... não sei explicar... se é possível traduzir em palavras o que foram atravessar esses trinta metros até entrar em sua  casa...)

E eis que eu vejo assim que passo pela porta da frente...

Meu Deus do Céu..

Em pé, na porta da cozinha, como Lázaro voltando da morte, Ri, viva, sorrindo, me dizendo "boa noite, Gustavo, quanto tempo! Eu me lembro muito de você. Que bom que veio!" Meus olhos se enchendo de lágrimas diante de um pai e uma irmã que não entendiam absolutamente nada! Um turbilhão de coisas passando na minha cabeça e eu só conseguia dizer: Meu Deus, pensava que você tinha morrido! O site da UFMG anunciava que você deu entrada no Hospital com morte cerebral já declarada! Depois disso não houve mais nenhuma notícia sua em nenhuma mídia! Seus últimos registros são de antes do AVC!!!

 E ela estava... está viva!

Esse tempo todo, chorei tantas vezes, queria tanto poder dizer que gostei demais de ter lhe conhecido, que torço pelo seu sucesso, queria lhe contar que estou aos poucos conquistando tudo que quero, tenho uma filha linda, uma companheira maravilhosa, continuo estudando, estou trabalhando numa área espetacular! 

Um abraço guardado há onze anos comoveu pai, irmã e mãe que agora vinha ver quem era o moço que achou que a Ri havia morrido. E eu sabia que, a partir daquele momento, meu mundo havia mudado completamente. Precisava mudar.

Então, se o conhecimento humano não foi capaz de driblar o legado da Morte, a fé para a qual nada é impossível, acabara de tornar realidade algo que eu jamais poderia esperar, que eu jamais ousaria desejar. No dia 21 de Agosto de 2014, o Pai da Sabedoria olhou pra alguém aqui embaixo e realizou algo que milhões, bilhões de pessoas desejaram viver um dia. Uma segunda chance de dizer pra alguém que se foi o quanto ela é especial. E finalmente eu consigo entender o que é que nos move, seres humanos, a acreditar que haverá um dia, um lugar, um tempo, em que todas as nossas aflições poderão ser recompensadas, a fé em que tudo o que vivemos só vale a pena porque temos a certeza do abraço guardado àqueles que à nossa maneira soubemos ou deveríamos ter sabido demonstrar o quanto foram amados.

Ela está viva... Aproveite enquanto os seus também estão!


Abraços e até meu próximo post

Gustavo Jonathan Costa
"Porque a vida vale a pena HOJE"











segunda-feira, 23 de junho de 2014

UMA CRÔNICA HISTÓRICA - ou Diário de uma visita em família a Ouro Preto

Ao som de Infinita Highway marcávamos nossa viagem de volta de Ouro Preto. Às vésperas de completar 33 anos, jamais tive a oportunidade de vencer os poucos mais de 130 quilômetros que me separavam de um dos maiores centros históricos do nosso país. E, por pouco, iria precisar esperar mais. Mas o patrocínio do meu irmão Ramon e a vontade de estar numa viagem em família superaram as minhas dificuldades, e naquela segunda-feira, dia 16/06, iniciamos nossa jornada.

 No caminho, registramos mais uma edição do Rádio Polo. Há dois anos, meu irmão e eu criamos o hábito de gravar um “programa de rádio” a bordo do seu carro (Um Polo, daí o nome...). Cada gravação não durava mais do que dez minutos. A nova edição contou com a participação de Vovô Eustáquio, Vovó Esmeraldina e Karine, a caçulinha sem educação. Engraçado como essa brincadeirinha faz a gente se encher de saudade daqueles momentos cada vez que escutamos.  Ouço os programas antigos e sou capaz de lembrar exatamente onde estava quando cada palavra foi dita.


E finalmente, após algumas horas de estrada – e uma retenção que nos deixou imóveis por mais de quarenta minutos – eis que chegamos ao nosso destino. Havia muito tempo eu não encarava o desafio de estar no mesmo teto que meu irmão, meus pais e minha filha por mais de três dias, convivendo juntos e revivendo experiências da minha infância enquanto marcava uma outra. Minha única certeza nessa viagem é que as sensações provocadas por ela durariam para sempre.

O primeiro contato com a Praça Tiradentes não me surpreendeu, confesso.  As ruas de pedra – que devem ter causado algum dano à suspensão do nosso querido Polo – faziam me sentir na Universidade Federal de Minas Gerais, exceto pelo fato de não encontrarmos quase nenhuma região absolutamente plana. As casinhas me lembravam muito às de minha querida Caracóis de Cima, uma região de Esmeraldas que mantém ainda intactas suas origens. Como já estávamos no horário de almoço e não tínhamos muito tempo para rodar a cidade, optamos por “experimentar” a tradicional comida mineira no Restaurante Bené da Flauta, recomendado por servir a melhor torrada do mundo, o que é um grande exagero, embora sua comida seja excelente, salgada apenas no preço!


Aliás, a cozinha mineira foi nossa escolha em todos os outros dias da viagem. Eu, que me recuso a subir em uma balança já há alguns dias, ainda não consegui ficar de saco cheio de tanto ver panelas de pedra em fogão à lenha recheadas de frango com quiabo e feijão tropeiro!

Nestes dias em especial, visitar Ouro Preto não é somente viajar no tempo, mas também no espaço. Em clima de Copa do Mundo, a cidade recebe turistas de todas as partes, e tem-se não só a sensação de estar em outra época, mas em outro lugar. Pelo menos dois mil colombianos haviam chegado ao centro histórico no fim-de-semana (dados não oficiais) e muitos europeus e asiáticos também estavam presentes.

No dia do jogo do Brasil contra o México, pela segunda rodada da fase de grupos, visitamos o Museu dos Inconfidentes e a Casa da Moeda. Conhecemos mais uma vez detalhes da história do povo em sua luta pela liberdade da opressão e da tirania de um império massacrante, mas de forma tão presente ela nos provoca arrepios. Acompanhamos o desenrolar dos acontecimentos torcendo para que dessa vez o final tenha sido diferente, mas nada muda. Os instrumentos de tortura aos escravos nos provocam dor quando os vemos. Difícil imaginar que há apenas três gerações da minha (sim, somente três gerações! O avô do meu pai foi escravo)  algo assim era usado contra um ser humano, usado pelos mesmos que ao cair da tarde frequentavam aquelas belas igrejas que rodeiam toda a cidade... Com certeza, ainda temos muitas contradições a superar.

Contradições muitas vezes retratadas na arte barroca presente por todos os lados. O barroco brasileiro sempre foi considerado uma arte “pesada”, carregada demais. Diante das obras de Aleijadinho, a profusão de dor e sofrimento exaltadas por imagens sagradas faz-nos sentir realmente diminuídos e em eterno conflito. O “culto do exagero” é onipresente, e olhos pouco adaptados à arte sentem que tudo aquilo é maravilhoso.
À tarde era hora de nos concentrarmos na Praça Tiradentes para assistirmos ao jogo da Seleção Brasileira. Um telão instalado no centro da cidade atraiu centenas de pessoas às ruas, e assim pudemos ter uma noção da dimensão da quantidade de turistas na região. Não eram poucos, mas menos do que esperávamos.  Meu pai, meu irmão e eu nos embolamos do jeito que dava, sentados no chão mesmo,  e entre uma Skol e outra fomos abordados por uma das figuras dessa viagem, o “Pitoco” um negro catador de latinhas e óculos fundo de garrafa que dava a si mesmo os méritos para aquela festa. Nós o tratamos bem a princípio, mas sua insistência em não nos deixar assistir ao jogo e ainda por cima querer beber nossa cerveja logo nos fez querer despistá-lo. Não foi fácil.

No intervalo do primeiro tempo, quatro latões (pra cada) e nenhum gol, já havíamos atingido o nível 2 da embriaguez. Na multidão um mexicano solitário era celebridade, tirava fotos com todo mundo. Um problema com meu carregador de celular me deixou praticamente incomunicável,  e o 1% de bateria restante no celular do meu irmão não foram o suficiente para que pudéssemos registrar aquele encontro “histórico”. 

Segundo tempo de jogo, e a Skol havia sido substituída por dez Kaisers que um morador de uma república vendia a dois reais cada uma. Os gritos de gol não vieram, ficaram entalados no fundo da garganta, impedidos pela atuação brilhante do goleiro mexicano Ochoa. Mesmo assim já estava rouco, gritava palavrões e gesticulava muito, entrava nesse momento no nível 3 da embriaguez. Tudo era festa! Fim de jogo, nada de gols. 

A multidão se espalhava e no meio da muvuca enxerguei minha mãe e minha filha que deviam estar na pousada. Então meus olhos já estavam me pregando uma peça? De jeito nenhum, elas chegaram a tempo de nos encontrar nos enturmando com um grupo de alemães que também tinham ido ali assistir ao empate da Seleção Brasileira. No meio deles, apenas um suíço que morava no Brasil falava português. Mas não lhe dei atenção, aproveitei meu "momento desinibição" para apresentar aos gringos minha mãe e minha filha, só para mostrar à minha progenitora que os anos de inglês não foram em vão. A Karine ficava maravilhada e ao mesmo tempo incomodada a ver pessoas conversando sem que ela pudesse entender uma só palavra, e ao mesmo tempo se sentia orgulhosa em saber que o papai podia entendê-los (desde que falassem somente em inglês... hehehe). 

Depois de nos despedirmos dos estrangeiros  -  e, na versão da minha mãe, gritarmos "Brasil! Brasil!" para os carros que passavam nas ruas - avistamos um rapaz afeminado que vendia ingressos para o show dos Candongueiros, um grupo de gafieira que iria se apresentar num salão próximo à nossa pousada. Já havíamos tomado conhecimento desse show na véspera, e então resolvemos ir, já que o movimento na praça começava a diminuir. E queríamos atingir pelo menos o nível 4 da embriaguez. 

Não sei se foi o álcool, mas antes de irmos, ainda conhecemos um americano, namorado de uma brasileira, que falava e entendia o português melhor do que a gente. "Oh man, I'd like a chance to warm up my English and you speaking my language. Come on! Forget it!" Acho que disse algo parecido com isso a ele. No caminho, um sambinha na esquina nos fez parar por alguns minutos, e enquanto esperava meu irmão ir até o banheiro do bar, acabei conhecendo Dona Lurdes, uma senhora negra e magrinha, mas muito negra e muito magrinha mesmo, do cabelo bem crespo, dona de um gingado e uma simpatia que logo conquistou a mim e ao Ramon. Ela e seu filho Diogo, que começava a fazer seu curso de metalurgia, também nos indicaram o Clube 15 de Novembro, onde iria se ocorrer o show dos Candongueiros. 

Chegando ao clube, encontramos a dona do salão, que conhecemos um dia antes na mercearia do Seu Enéas. A dona Marli e o marido dela, o "Seu Sérgio",  nos receberam de braços abertos (claro! clientes né?) e nos ofereceram umas porções tira-gosto de cortesia. No balcão, encontramos o rapaz afeminado que tinha nos vendido os ingressos: Josimar. Estudante de não-sei-o-quê, ele se sentou conosco e começou a reclamar (justamente!) do tamanho das porções pelas quais se cobrava 
oito reais! Acabamos discutindo sem querer com a cozinheira que não tinha nada a ver com a história, e fomos pra pista de dança. 

As cervejas já haviam sido substituídas por caipirinhas, e no meio do salão, vi a dona Lurdes, com quem dancei muito, o Diogo, que dizia insistentemente que fazia questão que Ramon e eu viéssemos em sua formatura, e tinha outro cara lá, que depois me adicionou no Whatsapp, mas eu não sei o nome dele! Tinha mais gente, umas meninas com quem dançamos um pouco de forró, só pra esnobar, mas o pior da noite foi ficar se esquivando do Josimar, que queria ficar comigo ou com o Ramon de qualquer jeito.

Quando percebi que estava ultrapassando já o nível 4 da embriaguez, minhas pernas automaticamente me levaram até a saída, e daí pra Pousada, parando pra pedir informação somente uma vez. Deixei pra trás meu irmão e uma blusa, mas só meu irmão iria chegar cerca de meia hora depois - segundo meu pai, que havia ficado acordado esperando a gente, me contou. 

Levantamos cedo no dia seguinte, mas não conseguimos ir muito longe. Após o café, dormimos enquanto vovó e Karine batiam perna pelas ruas de Ouro Preto. Somente à noite, contra a vontade da netinha, conseguimos fazer nosso último passeio: passar depressinha pela cidade de Mariana e conhecer um pouquinho de mais um centro histórico.

Enfim... visitar Ouro Preto foi uma desculpa que conseguimos para tirar nossa família do cotidiano e nos colocarmos juntos num lugar diferente... as anedotas que essa viagem nos proporcionou seriam praticamente as mesmas quaisquer que fossem os lugares escolhidos, e não caberiam nessa crônica: as conversas jocosas no café da manhã, a preocupação excessiva de minha mãe com a comida, a quantidade de sonequinhas.. além é claro dos longos papos que a muito tempo eu não podia bater com meu irmão caçulinha, no final das contas, foi o maior legado histórico que essa viagem pôde nos proporcionar, e queira Deus que as promessas feitas na Casa do Saci comecem de fato a se tornar - como o amor que tenho por essa família tão atrapalhada! - uma realidade! 









sexta-feira, 13 de junho de 2014

CONTOS ANACRÔNICOS: HISTÓRIAS DO PROFESSOR DE PORTUGUÊS DE SÃO CAJÁ DO MATO DENTRO

 A LOUCA

 Existe uma cidadezinha em Minas Gerais chamada São Cajá do Mato Dentro. Fica a 350 quilômetros de Belo Horizonte (logo ali, como dizem alguns habitantes da região).  Nessa cidadezinha vive um Professor de Português que, depois de visitar os principais centros históricos do Estado (como São José da Lapa e Vespasiano) resolveu se aposentar e morar no interior. Mas não parou de trabalhar. De Segunda a Sexta-feira continua a exercer seu ofício de professor, dando aulas particulares ou em grupos para que os habitantes da região possam aprender a se comunicar melhor no idioma padrão.

Mas não são todos os dias que vemos o Professor exercendo sua função. Geralmente, nos fins de semana, ele gosta de passear de tardinha pelo centro da cidade (uma pracinha, um bar e uma igreja) onde conversa com os habitantes locais. Estando a praça meio vazia neste Domingo, andou acompanhado de um exemplar de Dom Casmurro, do seu escritor preferido Machado de Assis, além do seu bloco de anotações. Sentando-se num dos bancos, tirou seus óculos, abriu o bloco e começou a escrever:

“Leitura Número 85 do Livro Dom Casmurro de ASSIS, Machado de. Pude perceber nessa leitura que...”

Enquanto prosseguia em sua análise, eis que uma conhecida louca que de vez em quando se desbaratava por ali surgiu do nada, completamente bêbada. Era inofensiva na maioria das vezes, mas muito incômoda.

- Eu mato aquele cretino! – gritou ela dando giros em torno de si, entrando na pracinha.

As janelas das casas começaram a se abrir e cabeças curiosas surgiram por entre as aberturas. O Professor, porém, permanecia impassível em sua leitura e nem sequer se mexeu.

- Vou acabar com a vida dele. O maldito que me trocou por aquela vaca!  Cretino!! Eu mato! Eu mato ele e todo mundo que aparecer na minha frente, eu mato! MATO!

Gritava cada vez mais forte, andando entre tropeços, a roupa maltrapilha, rasgada, o cabelo desgrenhado, rebelde, apontando para cima como chifres feitos de palha de aço. Os olhos vermelhos, a boca vazia de dentes, e os poucos que tinham eram amarelos e podres.

A Louca ainda não tinha se tocado da presença de mais uma pessoa na praça. O Professor, absorvido em sua leitura, sequer chegou a levantar os olhos para observar quem era a responsável por toda aquela gritaria que, aparentemente, não o perturbava. Quando ela viu que havia alguém ali perto, interrompeu o escândalo e começou a estudá-lo em silêncio.

- Foi você! – gritou novamente. – Você, o infeliz que me arruinou e me roubou tudo!!

Gritava histérica. Os homens do bar já haviam saído e se aproximavam da cena, preocupados com a reação da Louca. Nunca a tinham visto tão alterada, muito menos alguém permanecer tão quieto diante de tamanho escândalo. Todos conheciam o bom senso e a famosa paciência do Professor de Português, mas não sabiam que ele pudesse permanecer calmo diante daquela cena constrangedora.

- Larga isso e vem me encarar agora. Cadê aquela vadia, hein? Largou você também? Igual você fez comigo. Bem feito, agora eu quero tudo o que você me levou, tudo!!!

- Ei Professor. – gritavam alguns. – Saia daí, essa mulher está muito alterada hoje. Ela pode atacar o senhor.

Ele que até então não havia esboçado nenhuma reação tirou vagarosamente os óculos e fechou o livro, encarando a mulher sem demonstrar nenhuma surpresa.

- Madame, por favor. Os seus gritos estão prejudicando enormemente minha leitura. Por que está tão aborrecida?

- Eu quero tudo de volta, seu cretino. Seu traidor! Você me traiu e me levou tudo. TUDO!!

- Bem, se a senhora está me confundindo com alguém, devo lhe dizer que acabei de me mudar para este lugar e não posso ser quem você pensa que eu sou. Sinto muito!

- Eu sabia, você continua sendo um covarde, UM COVARDE!!

- Olha, eu estou num momento muito importante, lendo um livro de Machado de Assis. Se a senhora puder deixar essa conversa pra mais tarde...

- Um viado que você é. – Gritava a Louca. – Viadão! Esse homem é um VIADÃO, gente!

A Louca ria e gritava fazendo gestos obscenos, tentando chamar a atenção do Professor de Português. Ele, por sua vez, recolocou os óculos e retornou à sua leitura, inalterado. Os habitantes da região já começavam a se impressionar.

- Esse Professor tem moral mesmo.

- Nunca vi alguém ser tão calmo quanto ele.

- Se fosse comigo eu já teria arrebentado a cara dessa vadia.

A cena se desenrolava a cada minuto ganhando ares cada vez mais surreais. De um lado uma louca completa se descontrolava girando e se descabelando enquanto proferia todo tipo de ofensas e palavrões no ouvido do Professor. Por outro lado, ele permanecia imóvel, seus olhos desfilando pelas linhas do livro, quieto, incólume ao estardalhaço que se desenvolvia ao seu redor, como a estar no silêncio de uma biblioteca. Algumas mulheres gritavam das janelas pedindo que alguém tirasse a Louca de perto do Professor, pois ela poderia machucá-lo. Mas mesmo os mais corajosos não se aventuravam a chegar perto dela, pois jamais a tinham visto tão zangada e tão descontrolada como agora.

- Quer saber, homem? – continuava a mendiga. – Você não vale NADA! Perdi meu tempo com você. Você é um frouxo, um viadão mesmo. Tão viadão quanto esse Machado que você tá lendo aí.

- Como é que é? – perguntou o Professor levantando os olhos do livro.

- Você e esse cara que escreveu esse livro aí são dois VIADÃO!!! Ah, ah, ah, ah...

Foram necessários cinco homens para tirar o Professor de cima da Louca. Ela foi levada às pressas para o único hospital da cidade, em coma.